• Vitor Miranda

THE CARD COUNTER (2021)


Em “No Coração da Escuridão”, último trabalho de Paul Schrader, vemos um letreiro de igreja com a frase "Será que Deus irá nos perdoar?”. Essa pergunta continua em jogo no seu novo longa “The Card Counter”, uma obra-prima sobre o peso que o passado carrega em nossas vidas.


O filme conta a história de William Tell (Oscar Isaac), um profissional em jogos de azar que é completamente aterrorizado por suas ações do passado e que, em busca de redenção, decide ajudar Cirk (Tye Sheridan) a pagar suas dívidas. William também conta com a ajuda de La Linda (Tiffany Haddish), que arruma dinheiro para que ele possa participar das mesas de poker.


A prisão em que William se encontra no começo do filme é tanto física quanto figurativa. Ao passar anos em celas contando cartas, ele foi obrigado a confrontar o seu passado. William cometeu diversos crimes de guerra no complexo penitenciário de Abu Ghraib, mas Schrader deixa claro que a intenção aqui não é humanizar o personagem ou fazer com que o espectador perdoe suas ações, mas sim mostrar um homem em busca de uma redenção que nunca irá alcançar. Por mais que William faça o possível para ajudar Cirk a se reaproximar de sua mãe e pagar suas dívidas, nada será suficiente para que ele consiga seguir em paz com sua consciência.


A direção de Schrader é inventiva e estilosa, a escolha de mostrar o contraste entre as cenas do passado de William na prisão com as cenas dele com La Linda no presente nos ajuda a ver como, por mais bonito que as coisas sejam nos dias atuais, a memória dos eventos traumáticos na prisão sempre o acompanharão. O trabalho de câmera e a fotografia são espetaculares e entendem bem a dinâmica de enquadramento e movimentos de câmera essenciais para atingir momentos de suspense e dramad romance.



O roteiro é um dos pontos altos do filme, porque, além de conseguir mostrar um estudo de personagem de maneira fascinante, também consegue construir relações carismáticas e complexas entre os personagens principais. O roteiro transforma William em um pai para Cirk, com diversas cenas mostrando William aconselhando e tentando coloca-lo em um caminho certo e construindo uma relação íntima e inesperada entre os dois. O romance com La Linda poderia soar forçado e desnecessário, mas a construção do relacionamento dos dois casa perfeitamente com a química e o talento de Oscar e Tiffany.


Ambos merecem destaque por suas interpretações fantásticas. Isaac constrói com maestria a imagem desse homem assombrado por seu passado, ele é serio e fechado, mas nos momentos íntimos com Tye e Tiffany, Isaac também consegue mostrar a vulnerabilidade necessária para que possamos entender suas motivações e o peso que elas possuem. Tiffany, que é mais conhecida como comediante, encaixa perfeitamente em seu papel dramático e, ao invés de seguir clichês e interpreta-la como uma femme fatale, subverte as expectativas em torno de sua personagem e lida com ela de maneira sagaz e sincera, entregando momentos de conforto e leveza ao longa.


Em certo instante do filme, o qual William diz que nada pode justificar o que ele fez, Schrader entende isso e decide não usar de clichês para transformá-lo em um herói, muito pelo contrário, é com a culpa, arrependimento e imperfeição de suas ações que o cineasta agarra o espectador numa instável construção de uma figura fragilizada em total busca do perdão, sendo esse de alguém ou até de si mesmo.


THE CARD COUNTER (2021)
5/5 - OBRA-PRIMA