• Alan Sambista

SPENCER (2021)


Uma linda e estranha homenagem à Diana, Spencer mostra uma princesa lidando com atritos familiares, desordem alimentar e o aprisionamento de sua própria liberdade.

A direção de Pablo Larraín segue a mesma linha de Jackie (2016), acompanhando a sua protagonista de perto, como se fosse uma câmera de segurança. A forma como ele trabalha com a câmera é incrível e acaba tornando o filme um intimo retrato com nuances de horror psicológico, mesmo com problemas no roteiro.

O roteiro de Spencer tropeça os degraus da licença poética, sabe-se que o longa é uma fábula trágica sobre a Princesa Diana, mas o filme vai além disso, ele vira uma fantasia biográfica que utiliza de adereços fantasiosos para expressar as sensações e sentimentos de Diana. Isto não se torna um problema no começo do filme, Larraín consegue usar o extremo como um ponto positivo ao longa, porém, ele não tem sucesso em dosar os extremos, se torna estranho e fora da 'casinha' por assim dizer.

Existem sequências que Spencer consegue fazer a tão dita fábula ser um instrumento psicológico, nos colocando frente a frente na mesa de jantar sob os olhares da silenciosa Elizabeth. Diana não consegue manter-se parada, ela olha para os lados diversas vezes, se sente desconfortável e totalmente sem apetite. Ela se sente tão angustiada, que acaba destruindo seu caríssimo colar de pérolas, dado pelo príncipe Phillip e as pérolas caiem diretamente na sua sobremesa. Seu apetite vem à tona, e ela simplesmente se deleita com tudo aquilo. Essa sequência em particular, é como uma explosão de todos os seus sentimentos. Uma metáfora incrível sobre seus problemas alimentares, seus aflitos com Phillip sobre uma suposta traição (que nunca é aprofundada) e as cobranças que sofre por fazer parte da Coroa. Uma pena que o filme não tenha seguido esta linha.

A atuação de Kristen Stewart é muito boa, sua Diana é carismática, corajosa e instintiva. Ela não tem medo de fazer o que quer, por mais esteja sofrendo mentalmente com a pressão da mídia e de sua 'família'.

Por mais as fantasias de Larraín passem dos limites, ela domina a tela. O filme é lindo. Tecnicamente é um espetáculo, com uma bela trilha sonora, uma grandiosa produção de design, uma fotografia que abrilhanta a história e que expõe os sentimentos de Diana de forma refletora. Tem cenas desnecessárias, como o do segurança real que não acrescenta a história. Também existe um núcleo na cozinha da mansão como Downton Abbey, é um contraponto interessante aos problemas alimentares da princesa, por mais só tenha rendido dois diálogos realmente bons. O roteiro tenta extrair uma fala de liberdade de Diana em todas as situações, o que resultou em alguns momentos desconfortáveis: como a de Diana se enfiando no meio das balas de uma caça à faisões e pedindo para 'atirarem' nela, e Diana conversando com um faisão sobre fugir.

O roteiro também cria situações entre ela e Phillip, que nunca são desenvolvidas, como a questão da traição que nunca é aprofundada e fica jogada aos ventos. Phillip também incentiva o filho William à aprender a caçar, algo que não tem muita significância ao resultado final da história. O único lado bom desse conflito é a cena da mesa de bilhar, que é incrível. Diana está com tanta fúria e com a trilha sonora ao fundo, parece que ela está prestes a jogar a bola de bilhar em Phillip, só que ela desiste e deixa cair. Larraín deveria ter feito isso acontecer. Na verdade, o filme todo poderia ter sido feito dessa forma - mostrar o que Diana realmente queria fazer no momento, mas acabou não fazendo. Ainda assim, se sai melhor que os exageros fantasiosos que tomam conta do filme.

O longa seguiu um caminho diferente do esperado, com o tom mais distante do melancólico Jackie, o que seria claramente melhor. Mas ainda assim, é uma linda homenagem à memória da Lady Di. É um verdadeiro alívio que tenha terminado diferente. O final é arrepiante, libertador e moderno, é incrível como saímos de uma mansão renascentista para os subúrbios londrinos.

A decepção em torno do roteiro não é algo que estraga a experiência com o filme, no entanto, os textos são tão previsíveis e tolos que se tornam cansativos. Existe uma necessidade do roteiro em fazer Diana se reafirmar como uma vítima da história, sendo que todos nós sabemos a realidade. Ela é a vítima, e não precisa repetir centenas de vezes. Sua relação com seu pai também é abordada pelo filme, seu passado na fazenda vira uma fonte de extração para o longa que se inicia através de um espantalho. É totalmente desnecessário, Diana fala com a jaqueta do seu pai e se ridiculariza por isso (que bom que ela tem noção disto). O que falar da cena das cortinas? O objetivo era que Diana as abrisse novamente, simbolizando liberdade. Não existia necessidade de colocá-la se mutilando com um alicate. Outro ponto a problematizar é o fato de Ana Bolena entrar nesta história como uma espécie de Diana da época, o filme tenta incorporar uma na outra, o que é terrivelmente sem sentido e acaba se parecendo com uma cena retirada de uma série do Ryan Murphy.


No final, embora com alguns exageros por parte do roteiro, a ótima atuação de Kristen Stewart faz o longa funcionar como uma fábula que serve de escapismo para o fim trágico de Diana.


"SPENCER" (2021)
4/5 - ÓTIMO