• Vitor Miranda

Rio, 457 Graus


Não existe ironia maior do que a terça de carnaval marcar a data de 457 anos de Rio de Janeiro. Uma cidade construída por aqueles que a celebram. O carnaval no Rio é um evento a parte, visto que a cidade é referência quando se trata do assunto. A cidade que é palco de grandes escolas de samba também foi palco da história da nossa arte. Quantos filmes e diretores realizaram seus trabalhos no paraíso tropical, ajudando a moldar a história da construção e desenvolvimento da cidade e de seus moradores. Como nativo da cidade é impossível não me movimentar com tamanha celebração.


A história da arte brasileira é marcada por três grandes cidades: São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, com a última sendo a mais utilizada como janela para o nosso país. A arte tem abraçado a cidade do Rio de Janeiro desde os seus primórdios. Além das dezenas de longas que foram moldados ao redor da cidade, temos clássicos da dramaturgia que também fazem parte dessa história. Autores como Manoel Carlos passaram a vida retratando o cotidiano e os dramas sociais que ecoam na vida de milhares de espectadores. Com seus erros e acertos, o Rio é sem duvidas o cartão postal do nosso país, e com isso, cenário de muitas obras artísticas.



No nosso país não existe retrato social melhor que 'Rio, 40 Graus (1995)'. O filme mostra perfeitamente como é a vida carioca, pelo lado bom e pelo lado ruim. Uma cidade construida na desigualdade social, onde o turismo importa mais do que a vida de seus moradores. Nelson Pereira dos Santos (que apesar de tudo não nasceu na cidade) foi um dos grandes responsáveis por denunciar essa desigualdade através de seus projetos, que por mais críticos e, eventualmente, incômodos que fossem, não deixavam de mostrar os movimentos que funcionavam como escapismos para os menos favorecidos. Um desses movimentos é o carnaval, a tradição mais popular do nosso país. Ela que requer paixão de todos os envolvidos. Ela que serve como um dia livre, sem preocupações ou sofrimentos. O carnaval e o samba são muito bem representados em 'Rio, Zona Norte (1957)' outro filme de Nelson Pereira dos Santos. Aqui o diretor mostra a vida de um aspirante a sambista, que inocentemente é passado pra trás enquanto tenta alcançar seu sonho. O final do longa, por mais desagradável e cruel que seja, também é o mais próximo da realidade. Quantas pessoas passam pelo mesmo drama que Grande Otelo no filme? Quantas procuram algo para sonhar? As respostas não são fáceis e mostram um Rio de Janeiro que muitos não querem conhecer, mas o fato é que ele existe.


Mas apesar de tudo, a cidade não vive só de sofrimento. 'A Dama da Lotação (1978)', dirigido por Neville d’Almeida, mostra um Rio de Janeiro mais internacional, com a sensualidade que é esperada por aqueles que acompanham o país de fora. O despertar sexual de uma mulher que se vê tendo relações com passageiros de ônibus acontece com a cidade servindo de pano de fundo para a história. O dia a dia nada convencional daquela mulher cruza com o cotidiano de outros cidadãos, como se a intenção de Neville fosse de mostrar que a cidade não é uma só.



Dentro dos movimentos cinematográficos brasileiros, a violência urbana foi um dos temas mais bem abordados através das décadas. 'Navalha na Carne (1969)', 'Matou a Família e foi ao Cinema (1991)' e 'Cidade de Deus (2002)' são alguns dos melhores exemplos dessa abordagem. Navalha na Carne mostra um Rio de Janeiro brutal com os seus moradores. A história que envolve uma prostituta, o seu cafetão e um homossexual, que mora ao lado, possui uma abordagem devastadora, pois conforme vemos o dano que a sociedade inflige em cada personagem é impossível não pensar nas milhares de pessoas que passam por situações parecidas com a do filme. Matou a Família e foi ao Cinema faz parte de uma visão mais pessimista e sádica da cidade, com a violência sendo algo exagerado e gratuito. Já Cidade de Deus chamou atenção pela similaridade da história. O filme foge de qualquer sutileza e funciona como um retrato direto da realidade de diversas comunidades da cidade do Rio de Janeiro.


‘Rio Babilônia (1981)' é um retrato atemporal de um Rio de Janeiro oitentista marcado de corrupção, tráfico de drogas e sexo. Repleto de adereços visuais lindíssimos e teatrais, Almeida utiliza do 'relaxa e goza' da política brasileira para a criação de espetáculos eróticos e realçar ainda mais as icônicas paisagens da cidade. Em uma cena simbólica, Jardel Filho, que interpreta um milionário americano chega a reverenciar as travestis brasileiras, que além de também terem espaço na trama de 'Rio Babilônia', são apontadas pelo homem como um dos orgulhos do país. 'Pixote, A Lei do Mais Fraco', lançado no mesmo ano, mostra como Pixote sonhava com uma vida diferente no Rio, mas ao chegar lá se deparou com o mesmo destino - ou com um até mesmo pior. Babenco mostrou um lugar que muitos tentavam esconder. A prostituição, o crime, a fome e a negligência são retratados de maneira visceral pelo diretor, que desfaz o mito das paisagens paradisíacas que criaram ao redor da cidade.



No experimental 'Copacabana Mon Amour (1970)', Rogério Sganzerla expõe que nem a macumba conseguia curar a 'sindrome de viralatismo' do brasileiro. No calor de 40º graus da capital carioca, vemos indivíduos acampando nos calçadões de Copacabana na tentativa de descolar um mísero dólar de algum turista americano. Em plena ditadura militar, Sganzerla foi até os morros da cidade para alcançar o céu e mostrar o inferno em que o Brasil estava. Um país desvalorizado, desesperançoso e cego, já que a pobreza estava ali e não faziam nada pra mudá-la. Ainda assim, Sganzerla conseguiu retratar a liberdade em um momento de repressão. Vidimar (Otoniel Serra) é um homossexual que está apaixonado pelo próprio patrão e consegue livremente celebrar seu amor aos quatro cantos do Rio de Janeiro, fazendo até macumba para seus Orixás nas areias de Copacabana.


'Romance da Empregada (1998)' mostrou as dificuldades que as domésticas passavam com bom humor, sendo reflexivo sem um tom enfadonho ou exagerado. Na modernidade, o cotidiano carioca passa a ganhar tons cômicos em combate a deturpada realidade que assombra a beleza do Rio. Uma das grandes e fortes figuras desse movimento foi Paulo Gustavo, que ajudou a construir a visão "maravilhosa" que temos do Rio de Janeiro nos dias de hoje. Com o seu bom humor Paulo abordou temas sociais com o cuidado necessário para que seus filmes funcionassem e fossem acessíveis. Por mais imperfeitas e datadas que algumas de suas piadas fossem, é inegável a maestria com que Paulo conseguiu levar o tema da sexualidade para o público. Diferente de filmes como 'De Pernas pro Ar', Paulo sempre fez questão de realizar suas histórias no Rio, como a trilogia 'Minha Mãe é Uma Peça', exaltando a beleza da cidade em seus folhetins.


Mas no final o Rio de Janeiro é isso, um lugar longe de ser perfeito. Uma cidade tão diferenciada e abrangente não poderia ter uma história diferente quanto se trata da arte. O Leblon de Manoel Carlos muitas vezes é feito de piada, mas os pontos relevantes de suas crônicas sempre serviam como um dedo na ferida da sociedade. Manoel Carlos trouxe os aspectos críticos de cineastas para a dramaturgia, como um lembrete diário de que a sociedade precisa de mudança. Essa mudança ainda não aconteceu completamente e nem deve acontecer tão cedo, visto que a cidade tem regredido com o tempo, mas nem todas as imperfeições, por maiores que sejam, podem apagar a história e a cultura dessa cidade.