• Alan Sambista

Por que Kristen Stewart perdeu o favoritismo?


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Desde a aclamação de 'Spencer' no festival de Veneza em setembro de 2021, o diretor Pablo Larraín e a sua musa da vez, Kristen Stewart, ganharam os holofotes da indústria internacional com o filme que prometia ser um dos grandes favoritos ao Oscar 2022. Tudo estava se encaminhando bem para Stewart, ela se tornou o centro das atenções desde então e era claramente a favorita ao prêmio de Melhor Atriz deste ano. No entanto, nesta semana ocorreram reviravoltas que abalaram a campanha da atriz e do filme para a corrida do Oscar, e muitas especulações começaram a surgir pela internet, por isso decidimos esclarecer os pontos para entender melhor sobre o declínio da performance de Kristen Stewart que é tão amada pelos críticos e pelos fãs do filme.

Globo de Ouro

Tudo se inicia no domingo (9), onde Kristen Stewart perdeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz para Nicole Kidman por "Being the Ricardos". A vitória de Kidman é surpreendente, a atriz não parecia uma favorita. Nas apostas, Stewart estava no topo e indicava um favoritismo por grande parte dos membros e apostadores do HFPA, o que parecia no mínimo confortável para sua primeira vitória na premiação. No entanto, a atriz acabou perdendo para Kidman que coleciona 17 indicações e 6 vitórias no Globo de Ouro, sendo uma das grandes queridinhas do HFPA, mesmo que seu papel como Lucille Ball tenha sido arduamente criticado pelo público e pela crítica especializada, começando de sua escalação até o lançamento do filme para a crítica.


A primeira exibição de "Being The Ricardos" para a crítica foi aparentemente positiva, até que em seu embargo acabou surpreendendo com uma recepção mediana no Metacritic e aceitável no Rotten Tomatoes. Recentemente, um crítico acabou soltando que a Amazon Studios estava pressionando os críticos para apagarem as reações negativas, o que poderia justificar a surpresa em sua recepção. Muitos podem questionar a vitória de Kidman, mas é inegável que ela esteja boa no papel. Sua interpretação como Lucille Ball é o melhor elemento do filme que é facilmente um dos roteiros mais desanimadores de Aaron Sorkin, que também o dirige. A verdade é que o público tende a subestimar a força de Kidman na indústria, o que é um erro. Estamos falando de uma atriz que está aparecendo nesta corrida há anos, ela tem respeito o suficiente para conquistar o seu Oscar de 'Melhor Atriz' em 2022. E se depender da atriz, a estatueta já está em suas mãos. A campanha do filme está sendo uma grande surpresa, visto que a Amazon falhou com outros projetos.

"Spencer" não é uma biografia convencional.

Já que estamos falando sobre Kristen Stewart e Nicole Kidman, é válido ressaltar que duas estão em duas biografias, porém, a biografia de Kidman é mais convencional que a de Stewart, o que obviamente vai ter influência direta em sua recepção na indústria. "Being the Ricardos" tem uma estrutura mais comum ao documentar a história de Lucille Ball, sua desenvoltura é mais linear e mostra o desenvolvimento do casal ao longo dos anos e de seus projetos na TV. É o que geralmente Hollywood espera de uma biopic.


A verdade é que esse é um ano de biopics, temos Lady Gaga (com House of Gucci), Jessica Chastain (The Eyes of Tammy Faye), Jennifer Hudson (com Respect), Andrew Garfield (com tick, tick...BOOM!) e diversos outros filmes sobre figuras reais. Todos eles contam com alguma linearidade em sua estrutura e o comprometimento com os acontecimentos reais, enquanto o diretor de Spencer, Pablo Larraín não cansou de repetir que seu filme é uma fábula sobre a Princesa Diana, ou seja, baseado em imaginações a respeito do que a personagem real poderia estar vivendo naquele momento, tendo como base sua trágica história.

O longa é uma linda e estranha homenagem à Diana e retrata uma princesa em apuros, enfrentando atritos familiares, desordem alimentar e o aprisionamento de sua própria liberdade durante o jantar de Natal da família real em 1991. Durante este jantar, Diana decide se divorciar de Charles e "fugir" levando seus filhos, o que obviamente é um fato fictício. E outros fatos irreais acontecem no filme, tornando "Spencer" uma verdadeira fábula biográfica que utiliza de adereços fantasiosos para expressar as sensações e sentimentos de Diana. Larraín não tem sucesso em dosar as extremidades do roteiro, e torna o filme estranho e desconfortável. É claramente um filme artístico, ele não tem cara de ser do tipo que ganha reconhecimento ou prêmios da indústria, ainda mais quando aborda uma figura histórica recente e ainda problemática como Diana.

Por que a figura de Diana é problemática?

Antes de Kristen Stewart, a princesa Diana foi interpretada no cinema por Naomi Watts que foi amplamente criticada em "Diana (2013)" sendo chamada de 'caricata' e respectivamente o filme chamado de 'pastelão'.


Outros projetos com a princesa vieram a ser realizados, mas na televisão, como a série "The Crown", que por mais seja produzida pelo UK, foi mais abraçada pela indústria americana do que britânica, que rejeita a série e sequer a reconhece todos os anos no BAFTA, por exemplo. Abordar figuras históricas, ainda mais da família real britânica, é uma pedra no sapato de qualquer cineasta. Existe um risco enorme de rejeição por parte da indústria, ainda mais quando o projeto está mexendo com a imagem de pessoas já falecidas.

Diana, que era conhecida como a princesa do povo, teve sua imagem pintada em torno de uma pessoa perfeita, apaixonante, e é assim que ela está eternizada na história. Como vemos no filme, a perseguição midiática com Diana é algo que claramente a abalou psicologicamente e fisicamente, causando até a sua morte. E assim, podemos observar a hipocrisia da indústria britânica que só deixou a princesa em paz quando ela faleceu. Sua imagem que era deturpada e perseguida pelos veículos, se tornou intocável e respeitável, algo que a indústria não quer que volte a ser discutido, afinal, eles também são os culpados por muito do que aconteceu com Diana. Diferente de Watts, Kristen Stewart foi ovacionada pela crítica especializada dos Estados Unidos e Reino Unido. No entanto, você acha que a indústria está preparada para ver Diana sofrendo e 'perdendo a cabeça' como acontece em "Spencer"? A resposta é claramente NÃO.

A recepção de "Spencer" com o público não foi boa.

Com um orçamento de 18 milhões de doláres, "Spencer" arrecadou apenas 14,9 milhões de doláres no mundo inteiro. Não que estivéssemos cobrando uma bilheteria de sucesso para um filme independente, mas pelo peso do nome de Diana e também pelo apelo do filme ter uma temática parecida com a série "The Crown", a bilheteria poderia ter sido mais significativa. Além do mais, o filme teve uma recepção mista no Rotten Tomatoes, tendo apenas 52% de aprovação do público (com base em cerca de 500 avaliações), o que indica que os baixos números de bilheteria são decorrentes de um fraco word-of-mouth (boca-a-boca) por parte do público. Vale ressaltar que o gosto de boa parte dos votantes da indústria, principalmente do SAG se alinha ao gosto do público geral.

Kristen não foi indicada ao SAG... por homofobia?

Kristen Stewart era favorita para vencer o SAG ainda quando não tínhamos a revelação das indicadas, graças à campanha massiva que a atriz fez em parceria com a produtora NEON durante meses, visando obter reconhecimento do Sindicato dos Atores. O SAG é um dos prêmios mais importantes da temporada de premiações, e através dele, os filmes conseguem ganhar força e obter apoio da indústria para chegar até ao Oscar, e não deu outra, Stewart ficar fora das indicações ao SAG a fez perder todas suas chances de vencer o Oscar. Com muito alvoroço em torno do 'snub' de Kristen Stewart nas redes sociais, alguns votantes do SAG se pronunciaram sobre o suposto boicote à atriz. Alguns estão espantados com o fato da atriz ser esnobada e outros apoiando o SAG, afirmando que não gostaram da performance da atriz como Diana.


O crítico Mick LaSalle da San Francisco Chronicle apontou que os críticos acharam a performance ruim. Jeff Beck, um dos votantes do SAG, se manifestou no tweet apoiando os votantes do Screen Actors Guild por não reconhecerem a atriz:

"Isso é o que foi tão chocante quando eu assisti o screener alguns meses atrás. É claramente uma atuação ruim e, no entanto, ela recebeu tantos elogios inexplicáveis. Eu aplaudo meus colegas membros do SAG por fazerem o certo".

- disse o votante do SAG e membro do Washington D.C. Area Film Critics Association.


Outros votantes do SAG também se manifestaram, dessa vez, a crítica Jennele Riley se manifestou à favor de Kristen Stewart:

"Sem querer ser hiperbólica, mas é difícil lembrar de um esnobe tão chocante quanto a de Stewart na história do SAG Awards. Desde que “Spencer” estreou no Festival de Cinema de Veneza (talvez até antes), a atriz foi apontada como a favorita para seu papel como a princesa Diana. Não apenas sua transformação impressionante silenciou qualquer dúvida, mas havia uma forte percepção de que Stewart estava demorando a ter uma indicação, visto que entregou ótimos trabalhos nos últimos anos. Tudo parecia estar no caminho certo: Stewart era charmosa no circuito e acumulava indicações e prêmios regularmente. É difícil dizer o que aconteceu – talvez um número suficiente de eleitores não tenha visto o filme? Talvez todos assumissem que ela estava segura e quisessem espalhar o amor com seus votos? Nunca saberemos."

- publicou Jenelle Riley num artigo para a Variety, confira aqui.


O esnobe ficou ainda mais polêmico, quando segundo um jornalista deu a entender que Stewart foi boicotada pelo SAG por ser uma mulher publicamente declarada bissexual:

"Há algo na teoria de que o apelo limitado de Kristen Stewart além dos atores tradicionais pode tê-la prejudicado no SAG. Falei com 10 membros do SAG que não são da indústria (de leitura, TV e rádio), cuja opinião sobre ela variou de indiferença a ódio total"
- Você perguntou a eles por que eles a odeiam? Uma pessoa que eles nem conhecem? - Eu me aprofundei com um dos eleitores tentando entender o porquê... era bem sem fundamento e beirava "ela não gosta de homens", então deixei pra lá.
- Por favor, diga que você está brincando... - Se eu publicasse as piores coisas que foram ditas, as 35 mil pessoas que engajaram esse tweet explodiriam.

Jason não falou mais nada no Twitter após essas declarações, mesmo pressionado com diversas perguntas dos fãs de Stewart pedindo mais informações sobre o suposto ocorrido.


No entanto, isso é duvidoso. Claro que o SAG é formado por membros de diversas áreas do entretenimento, não apenas atores, no entanto, existem membros que são LGBTQ+ e também existem indicados e vencedores que também são parte da comunidade. Por que ocorreria um boicote direto à Kristen Stewart por algo do tipo? Ainda mais quando temos a atriz afro americana Ariana DeBose, que é declaradamente lésbica, sendo indicada por "West Side Story", por exemplo, que conseguiu consolidar seu favoritismo na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante.


Diversos motivos podem ter prejudicado a indicação de Stewart, mas o mais provável é a recepção de "Spencer" na indústria, que foi claramente divisiva com os membros, principalmente os mais velhos que tendem a rejeitar filmes como Spencer, os considerados art house. Um exemplo disso é o ator Ethan Hawke, que obteve favoritismo da crítica em 2018 com o filme de Paul Schrader, 'First Reformed'. O ator que venceu 29 associações críticas por sua interpretação, só foi reconhecido no Critics Choice Awards, que também é uma associação crítica (Broadcast Film Critics Association).

A performance de Hawke não é biográfica, mas tem nuances parecidas com a de Stewart, e dificilmente este tipo de interpretação tende a agradar a indústria. É curioso ressaltar que Kristen Stewart correu ainda mais riscos de boicote que Hawke pelo peso que carrega a figura de Diana. Como já foi dito, Stewart está interpretando uma figura histórica e intocável da família real britânica num filme que é vendido pela mídia como biopic, mas é um filme claramente artístico e com elementos fantasiosos de horror psicológico, não chegando a ser uma biografia convencional. E está longe de ser.

Não é de hoje que "Spencer" tem sido um filme divisivo para a indústria, a Vanity Fair já publicou um artigo em setembro de 2021 sobre sua exibição no festival de Telluride apontando que o longa teve uma recepção morna com o público:

"Devo dizer que detectei uma sensação de anticlímax quando nossa exibição de Spencer acabou. Os aplausos foram mornos, a energia contida. Eu me pergunto se esse filme está destinado a ser adorado por aqueles predispostos a amá-lo, mas rejeitado, ou talvez só ignorado por todos os outros. O Neon pode ter que ser um pouco mais agressiva em sua campanha do que o planejado originalmente. Esse é o meu palpite, de qualquer forma (...)"

A Vanity Fair publicou outro artigo em 22 de outubro de 2021, falando sobre as chances de "Spencer" na categoria de 'Melhor Filme' no Oscar e os planos de campanha da NEON.

"Spencer" de Pablo Larraín, que nós dois sabemos que não funcionou bem para uma boa parte da indústria, é um queridinho da crítica e tem muita paixão por trás. A Neon está lançando o filme em 5 de novembro, iniciando a campanha de melhor atriz de Kristen Stewart – independentemente de como o filme se saia no geral, ela é a favorita da categoria agora – e procurará construir apoio constante para o filme em outras categorias, principalmente figurino e roteiro.

Consequentemente, a Vanity Fair acabou acertando a recepção do filme com a indústria, que acabou sequer conseguindo força em percussores do Oscar e na longlist de roteiro e Melhor Filme no BAFTA. No Globo de Ouro, Spencer só obteve uma indicação. No Critics Choice Awards recebeu apenas 2 indicações, enquanto "Jackie" do mesmo diretor obteve 6 indicações em 2017. No Oscar, o filme ficou fora da shortlist de uma das categorias que era favorito: Melhor Cabelo e Maquiagem.

Com a clara rejeição ao filme de Larraín já visível antes das indicações ao SAG, fica impossível atestar que "Spencer" é um dos favoritos da indústria, o que acabou prejudicando a gloriosa performance de Kristen Stewart. O apoio crítico não é o suficiente neste caso, visto que críticos não votam em premiações da indústria (SAG, Oscar, BAFTA, etc), o que esclarece o fato do favoritismo de Stewart entre os críticos não tenha influência em seu reconhecimento no SAG. Das cinco performances indicadas ao Screen Actors Guild, com exceção de Olivia Colman (The Lost Daughter), quatro delas são biográficas: Lady Gaga (House of Gucci), Jessica Chastain (The Eyes of Tammy Faye), Jennifer Hudson (Respect) e Nicole Kidman (Being the Ricardos). Como foi falado anteriormente, as quatro performances são biopics com algum tipo de convencionalidade, diferente de "Spencer".


Outro filme de Pablo Larraín que fugia dessa estrutura biográfica, foi "Jackie (2016)" com Natalie Portman. O longa foi bem aceito, mas também foi bastante divisivo entre os membros da indústria. Assim como Kristen Stewart, Portman foi a favorita da crítica, vencendo uma grande parte das associações críticas. Porém, perdeu o Volpi Cup de Melhor Atriz para Emma Stone com "La La Land", perdeu os trifectas (LAFCA, NYFCC e NSFC) para Isabelle Huppert e perdeu todos os prêmios televisivos para as duas, vencendo apenas o Critics Choice Awards. Tudo mira que este seja o destino de Kristen, que perdeu o Volpi, LAFCA e NSFC para Penélope Cruz (Parallel Mothers) e o NYFCC para Lady Gaga (House of Gucci).

Diferente de "Spencer", Jackie não possui elementos fantasiosos, mas possui uma frieza bastante criticada e um roteiro também falho. De fato é o roteiro de Steven Knight que claramente não ajuda Spencer. O texto tem uma necessidade em fazer Diana se reafirmar vítima da história o que é cansativo, além de ser exagerado a ponto de colocar a princesa conversando com o casaco do pai falecido, e ter a ousadia de fazer Diana se mutilar com um alicate para descontar a frustação de estar aprisionada. A Diana de Pablo Larraín é tão intensa que faz os exageros fantasiosos do filme deixarem o fato da princesa fugir com os filhos ser o fato mais 'normal' de todo o longa. O que claramente deve ter incomodado a indústria.

E sim, ser a atriz de 'Crepúsculo' pode ter a prejudicado...

Pode parecer um absurdo, mas a filmografia de Kristen Stewart pode sim ter a prejudicado. Existe um bizarro preconceito com artistas que fizeram franquias de grande bilheterias, e nesse ano outro ator que ficou fora do SAG foi o ator Jamie Dornan na categoria de 'Melhor Ator Coadjuvante', que mesmo estando um dos maiores filmes do ano, Belfast, acabou ficando de fora das indicações. O snub de Dornan na categoria também foi inesperado, mas ainda assim o ator foi indicado por 'Melhor Elenco'.

Dornan fez parte da franquia '50 Tons de Cinza', assim como Stewart fez parte da franquia 'Crepúsculo'. É curioso observar, mas muitos dos atores dessas franquias de sucesso acabam nunca sendo reconhecidos no SAG. Como por exemplo, a franquia de Harry Potter que nenhum dos atores principais como Daniel Radcliffe, Emma Watson ou Rupert Grint obtiveram indicações ao prêmio. De Crepúsculo, Kristen Stewart e Robert Pattinson ainda buscam por reconhecimento na indústria e mesmo que estejam fazendo ótimos projetos, eles dificilmente são reconhecidos por premiações da indústria.


Temos o exemplo de Stewart que é vencedora de um César por 'Clouds of Sils Maria (2014)', foi reconhecida pelo NYFCC, fez parte do elenco de 'Still Alice (2014)', fez parte de uma campanha de Atriz Coadjuvante, e nem assim conseguiu reconhecimento da indústria. A verdade é que muitos atores são prejudicados por suas franquias de sucesso, que acabam sendo mal vistas pela indústria e sofrem com manchas pelo resto da carreira. E por mais Kristen esteja longe de vencer o Oscar com "Spencer", é uma vitória ver a atriz ir tão longe como uma das possíveis indicadas ao Oscar de Melhor Atriz, enquanto diversas outras atrizes como Emma Watson e Shailene Woodley talvez nunca cheguem perto de obter uma indicação ao prêmio. Só nos resta torcer que Stewart seja reconhecida com uma indicação ao Oscar, pois sim, ela merece.

Gostou do nosso artigo? Leia nossa crítica de "Spencer (2021)" aqui.