• Alan Sambista

O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS (2021)

Sob a óptica de Suzane Richthofen, "O Menino Que Matou Meus Pais" é uma fábula penetrante e conflituosa sobre o crime que chocou o Brasil.


Uma viatura da Polícia Militar chega até a mansão onde vivia Suzane von Richthofen, seus pais Manfred e Marísia, e seu irmão Andreas. Em frente à mansão, Suzane é a primeira a falar com os policiais. Uma possível invasão a domicílio teria acontecido. Policiais adentram no local e chegam a tal cena do crime. O Brasil inteiro conhece ou já ouviu falar sobre o final dessa história. O Menino Que Matou Meus Pais chega ao Amazon Prime Video numa fase difícil da indústria, a fase pandêmica ainda é uma realidade no Brasil, o que impediu seu lançamento direto nos cinemas que era previsto para 2020.


O filme chega com uma intenção no mínimo respeitosa. É arriscado inserir um caso criminal tão marcante no cinema brasileiro, visto que ainda é alvo de críticas pelo público geral, principalmente pelo fato do caso Richthofen ainda ser recente. O caso volta a dar às caras de vez em quando com as famosas "saidinhas" de Suzane nos feriados. Em 2002, o caso chocava o âmbito nacional pela primeira vez. E ele ainda choca. Então, os desdobramentos dessa história sempre irão dar o que falar.


O caso recebeu dois filmes, retratando duas ópticas. A adaptação parece um pouco modernizada também, talvez para fisgar um público mais novo. Ambos dirigidos por Maurício Eça, diretor de Carrossel: O Filme (2015). A história é dividida entre a versão de Suzane (Carla Diaz) sobre o caso e a versão de Daniel Cravinhos (Leo Bittencourt), seu ex-namorado na época. O Menino Que Matou Meus Pais vai explorar a visão de Suzane sobre o ocorrido, retratando-os de forma quase fantasiosa. O roteiro funciona nesse quesito, é como se ocorresse uma inversão de realidades. A jovem Suzane se derrete em lágrimas em frente ao júri e retrata Daniel Cravinhos como o verdadeiro culpado da história, ela conta que Daniel a introduziu às drogas. Outros relatos são explorados, Suzane diz que Daniel teria abusado dela no dia de seu aniversário, além de ter extorquir todo seu dinheiro a obrigando a dá-lo presentes caríssimos a cada ida ao shopping.


É perceptível uma Suzane fragilizada, tímida e apaixonada que não tinha a coragem de afrontar seus pais em prol do romance. A atuação de Carla Diaz é segura, ingênua, ela transmite o que Suzane queria chegar com as palavras - na verdadeira posição de vítima. O que desperta atenção é que essa pode ter sido a visão do Brasil sobre o caso durante seus primeiros dias. A intenção de Eça em incorporar os depoimentos de cada acusado em forma de simulação é extremamente bem feito. Enquanto isso, o roteiro parece insípido, não adentra muito na profundidade na questão linguística e na relação dos personagens, então, quem conhece o caso não irá se surpreender com o embasamento jornalístico.


E sim, é bizarro ver o caso com os olhos de Suzane, é como uma fábula, porém, penetrante e conflituoso. Toda sequência do crime tem um suspense envolvido, e isso prende toda a atenção. Vemos Suzane surtar, se esgoelar e ficar desnorteada perambulando pela casa enquanto presencia há poucos metros o último suspiro de seus pais. Mesmo com a decisão de Eça em não mostrar as cenas de violência, o conformismo de Suzane ainda é assustador, principalmente na última cena do longa, que ela aguarda Daniel ir notificá-la sobre a morte dos pais.


O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS (2021)
3.5/5 - BOM