• Vitor Miranda

MVFF44 - LA CIVIL (2021)


Parte da cobertura do '44th Mill Valley Film Festival'.


"Se você tem uma mãe, você sabe o que é amor."

Apesar de fazer parte de um gênero de filmes repetitivos, La Civil explora bem a desolação e impotência causadas pela dúvida.


Numa sinopse completamente genérica, La Civil conta a história de Cielo (Arcelia Ramírez), que faz de tudo para saber o que aconteceu com sua filha que foi sequestrada por um cartel. O filme não explora nenhum tema que já não havia sido explorado antes, mas é elevado por uma direção inquietante e por atuações poderosas.


Com grande parte do filme sendo filmado com a câmera na mão, a diretora Teodora Mihai constrói muito bem a tensão e vivacidade das cenas, fazendo com que o espectador se sinta parte do que está acontecendo. O uso da câmera na mão é muito inteligente e bem utilizado, e isso fica nítido após o clímax do filme, quando a diretora usa a câmera fixa como um contraponto, dando a sensação de que o pior já passou.


A construção do cartel como uma força avassaladora que silencia e oprime a sociedade tem como resultado um filme tenso, que nos faz temer e questionar o destino de Cielo. Mas o cartel não é a única força do filme. Mihai nos mostra que a brutalidade dos militares é a mesma do cartel, e que a única coisa que difere um do outro é o ponto de vista, e pela direção nos mostrar a visão de Cielo, a violência e o horror causado pelos militares se tornam algo necessário na busca da verdade.


Arcelia Ramírez está irretocável em seu papel. A atriz consegue carregar a carga dramática e o sofrimento dessa mãe inconsolável, que se agarra à sua fé com o intuito de negar a realidade à sua volta.


O filme lembra muito A Troca (2009) dirigido por Clint Eastwood. Em ambos os filmes a personagem principal é implacável e está disposta a tudo para saber o fim de seus filhos. Mas o que mais assemelha um filme do outro é o fato de que na negação da realidade, a resposta para seus questionamentos não confortam. Tanto em A Troca quanto em La Civil, todos sabem que a tragédia já aconteceu, mas a dúvida atormenta e oprime. Quando se descobre a verdade e o destino das vítimas, nada muda em relação aos sentimentos que nos levaram até o final do filme.


O final do filme é sem dúvidas perfeito para essa história. Ao deixar em aberto para interpretações, a diretora nos coloca no lugar de Cielo. Nós sabemos o que aconteceu e temos evidências disso, mas a fé e a esperança de um final feliz nos faz questionar se aquele foi, de fato, o final de sua história.


LA CIVIL (2021)
4/5 - ÓTIMO