• Vitor Miranda

Entrevista com Achouackh Abakar do filme 'Lingui, The Sacred Bonds'


A VHS Cut teve a oportunidade de entrevistar Achouackh Abakar, a atriz principal do filme chadiano 'Lingui, The Sacred Bonds'. O filme acompanha a história de Amina, uma religiosa que se encontra em uma situação difícil quando sua filha engravida. Para salvar a vida de sua filha, Amina faz todo o possível para ajudá-la a conseguir um aborto. O filme mostra as redes de segurança que é irmandade. Este é seu segundo filme com o diretor Mahamat-Saleh Haroun.


Vitor: Quero começar dizendo que estou muito feliz por essa oportunidade. 'Lingui' estava no meu radar desde sua estreia em Cannes no ano passado e quando a MUBI trouxe o filme para a Mostra de Cinema de São Paulo eu não pude assistir por causa da minha agenda, então eu só assisti essa semana e poder entrevistá-la é um presente.


Achouackh Abakar: De nada.


Vitor: Quando eu estava estudando para esta entrevista eu me deparei com o fato de que você viveu na Califórnia por dez anos. Como você acha que a percepção em torno do aborto é diferente da Califórnia para Chad?


Achouackh Abakar: Em Chad além do fato de que é ilegal, também é proibido pela religião. É um tabu. Na América, pelo menos as pessoas são livres, mas aqui (em Chad) vivemos em uma sociedade onde quando você não está casada você não pode ficar grávida. Amina engravidou quando tinha 16 anos e a expulsaram de casa e ela teve que viver e criar seu bebê sozinha enquanto as pessoas não a respeitavam. Ela nunca se casou porque teve um bebê fora do casamento. A sociedade diz que não está tudo bem e a lei diz que não está tudo bem, então se você tiver o seu filho você está sozinha, se você abortar você está sozinha, e é isso que ele [Mahamat] estava querendo mostrar, os laços entre as mulheres porque só elas podem entender essa situação.


Vitor: A cena que definiu o filme para mim é a sequência do título com a irmã de Amina. Você pode ver que ela já foi ferida antes, você pode ver que ela sentiu a ausência de sua família em sua vida, mas quando ela vê sua irmã pedindo ajuda ela coloca qualquer tipo de orgulho de lado e apenas explode em lágrimas. É muito poderoso. Mas quando a irmã se aproximou dela você acha que ela estava tentando fingir que ela não se incomodava com os problemas dela ou ela estava apenas brava?


Achouackh Abakar: Na primeira cena ela estava brava, mas quando percebe que sua irmã tem um problema com a filha ela percebe que ambas estão vivendo na mesma situação, então ela entende que não são apenas irmãs, são mães, e com isso a relação delas muda e elas decidem se ajudar.


Vitor: Eu sei que você fez outro filme com Mahamat no passado e eu sei que o assunto desse filme é pesado, então talvez saber que o diretor pode ajudar, mas você acha que a conexão entre vocês dois ajudou a moldar o filme?


Achouackh Abakar: Sim, porque eu não sou uma atriz profissional, eu nunca tive nenhuma aula de atuação ou algo assim. Eu o conheci em 2012, quando ele estava fazendo seu filme 'Grigris'. Eu fiz os figurinos e 8 anos depois, quando ele estava no elenco para o papel de Amina, eu disse que queria fazer esse papel e ele me escolheu. Ele sabia que eu não era uma atriz profissional, então ele tomou seu tempo para me explicar o que ele estava esperando de mim. Começamos a filmar o filme depois que eu tinha acabado de dar à luz, meu filho tinha apenas 2 meses de idade, então ele me explicou que só queria que as emoções fossem reais. Ele me disse para não me preocupar com essa coisa de "atuar" e que eu deveria tentar entrar no personagem e sentir tudo como uma mãe. Então toda vez antes de filmar ele me dizia o que íamos fazer naquele dia e o que eu devia fazer. Minha filha do filme (Rihane Khalil Alio) foi ficar na minha casa algumas semanas antes de começarmos a gravar, então ela estava comigo e meus dois filhos e nós meio que começamos a nos conhecer e ela se tornou um dos meus filhos de forma natural. Então foi ótimo e ele facilitou as coisas para mim.


Vitor: Você parece muito profissional. Eu já ia dizer que parece que ele fez o filme inteiro só para você. A cinematografia é ótima, mas especificamente os close-ups em você foram simplesmente impressionantes e esse papel é o sonho de qualquer ator que queira mostrar o seu talento. O primeiro filme que me veio à mente quando assisti foi "Never Rarely Sometimes Always". Eu sei que é diferente porque em alguns estados americanos o aborto é legal, então mesmo que não seja uma boa situação é melhor do que o que acontece no Chad. Você chegou a assistir o filme?


Achouackh Abakar: Não, mas li muitas comparações entre os dois filmes.


Vitor: Você disse que não era profissional, mas se preparou para o papel ou foi trabalhar naturalmente?


Achouackh Abakar: A primeira coisa que aprendi foi como fazer o kanoun (uma espécie de fogão). Um homem que faz isso veio todos os dias por seis semanas e me mostrou passo a passo de como faze-lo e eu consegui fazer um pequeno. Então eu tive que aprender a fazê-lo. Foi muito engraçado e muito interessante, e então também foi muito interessante conhecer a vida de todas essas mulheres que andam pela rua vendendo frutas ou vendendo roupas. Depois desse filme toda vez que vejo uma dessas mulheres eu entendo que elas estão fazendo isso para sobreviver e é isso que eu gosto em Amina, porque vemos uma mulher forte trabalhando para cuidar de sua filha e, quando ela se viu nessa situação, ela fez o seu melhor para salvar sua filha de ter a mesma vida que ela teve. Ela quer uma vida melhor para ela. Vemos todos os laços entre as mulheres, vemos elas se ajudando porque nesta sociedade você tem os homens que têm sua vida separadas da realidade, então às vezes você vê eles (que são o chefe da família) não sabendo sobre as pequenas coisas que fazem da vida o que ela é, como os pequenos problemas com as crianças e coisas assim, porque isso se torna culpa da mãe. Mahamat queria me dar o papel da irmã mas eu disse "Não, eu quero interpretar Amina" porque eu queria mostrar esta mulher forte que mostra como as mulheres podem ser fortes mesmo que sejam pobres e em um lugar onde tudo é governado pelos homens.


Vitor: E só porque eu estou muito curioso, qual foi o seu filme favorito do ano passado? Se você teve a chance de assistir filmes suficiente.


Achouackh Abakar: Eu assisti a muitos filmes no ano passado, mas meu favorito foi 'Farha', de Darin Samallan. É sobre a guerra na Palestina. Eu assisti no Festival Internacional de Cinema Feminino de Aswan, no Egito.