• Felipe Araujo

DUNA (2021)



Duna é fantástico, com uma imersão total em uma experiência equivalente à uma viagem no tempo para um futuro estranho, mas com conflitos humanos palpáveis para os tempos atuais.

Duna conta a história de Paul Atreides (Timothée Chalamet), um jovem brilhante e talentoso que nasceu com um destino grandioso além de sua compreensão, e que deve viajar para o planeta mais perigoso do universo para garantir o futuro de sua família e de seu povo. Enquanto forças antagonistas explodem em conflitos pelo fornecimento exclusivo do recurso mais precioso existente no planeta, a especiaria, um produto capaz de libertar o maior potencial da humanidade.


Medo, é o sentimento que o primeiro ato do longa transmite. Acompanhamos a Casa Atreides, que por ordem do imperador, se prepara para a transferência de seu lar e centro de poder do planeta Caladan, onde seus ancestrais viveram por gerações, para o brutal e inóspito Arrakis. Mas este planeta também é a fonte da maior riqueza do universo, e era comandado pela Casa Harkonnen por décadas, assim a tensão é palpável para o que parece certamente uma armadilha.


Paul tem sonhos, ou melhor dizendo visões, sobre este novo planeta e teme por sua família, sentimento este compartilhado pelo seu pai, Leto Atreides, com uma ótima interpretação de Oscar Isaac, que entrega um líder forte, mas gentil. Rebecca Fergunson como Lady Jessica perfeitamente demonstra o conflito interno que a personagem está passando, entre o papel de mãe e seus deveres como Bene Gesserit, uma poderosa irmandade feminina que tem seus objetivos próprios. Esta dualidade da personagem encarnada por Ferguson tem sua maior prova com a visita secreta de sua mentora, a reverenda madre interpretada pela imponente Charlotte Rampling, que incorpora o poder e mistério da irmandade.



Neste panorama os personagens e nós como público aterrissamos em Arrakis, e que visão! Os elementos técnicos do filme foram imaculadamente projetados para criar este planeta, desde os efeitos especiais sem falhas, ao design de produção que invoca os elementos hostis do planeta, com tudo isso emoldurado pela fotografia magnifica de Greig Fraser. A trilha sonora de Hans Zimmer é esplêndida e envolvente, unindo elementos que remetem a períodos ancestrais como também ao alienígena. A união destes componentes cai como uma luva neste universo que se encontra a mais de vinte mil anos no futuro, mas onde não existem computadores e os seres humanos conhecidos como Mentats os substituem.


As atuações do elenco também acompanham o alto nível técnico, com destaques também para o intimidante Barão Vladimir Harkonnen interpretado por Stellan Skarsgård, e o fiel Mestre das Espadas da Casa Atreides de Jason Momoa, Duncan Idaho. Chalamet é brilhante aqui equilibrando todos os elementos do complexo Paul, como um jovem poderoso herdeiro de uma Casa grande, mas também como o messias relutante. Zendaya como Chani e Javier Bardem como Stilgar fazem o possível no curto tempo de tela, seus personagens estarão mais presentes na sequência.


A adaptação desta primeira porção da história é bastante orgânica, com elementos removidos do livro e outros adicionados, mas sempre respeitando a obra de Frank Hebert. Todas as temáticas que fizeram do livro uma grande história estão aqui: a crítica ao imperialismo, as questões ambientais e os avisos contra líderes messiânicos que parecem mais atuais que nunca.


Tudo isso é orquestrado com maestria pela visão do diretor Denis Villeneuve, que já dirigiu as ótimas obras de ficção científica Arrival (2016) e Blade Runner 2049 (2017). Ele teve a difícil tarefa de trazer à vida uma história que por anos foi considerada inadaptável e o resultado não poderia ser melhor. Pela divisão do primeiro livro em duas partes o final do longa pode parecer abrupto para o olhar desatento, mas o arco de Paul para aceitar seu destino é completo aqui. E é apenas o começo, e este longa trás uma fundação capaz de produzir uma das melhores sagas cinematográficas.


DUNA (2021)
5/5 - OBRA-PRIMA