• Vitor Miranda

Críticas do 11º Olhar de Cinema


OCTOPUS de Karim Kassem mostra o impacto que a explosão no aeroporto de Beirute trouxe para a cidade e para seus habitantes. A explosão aconteceu no dia 4 de agosto de 2020 e fez cerca de 200 vítimas. O documentário de Kassem utiliza de uma abordagem mais introspectiva e contemplativa, dando espaço para que o espectador possa refletir sobre a tragédia.


Utilizando planos fixos, Kassem mostra de maneira sutil os impactos físicos e emocionais causados pela explosão. Cada canto da cidade conta a história daquele dia, seja por janelas quebradas ou pela destruição completa de edifícios. A natureza contemplativa da direção de Kassem funciona perfeitamente, evitando depoimentos dramáticos ou qualquer tipo de narrativa enfadonha - quase não há diálogos no documentário. Embora pudesse se aprofundar um pouco mais no impacto emocional da explosão, a abordagem de Kassem funciona por conta do curto tempo do filme - que possui apenas 63 minutos de duração. O que poderia ter sido monótono ou vazio acaba se tornando um hipnotizante retrato de uma tragédia. As imagens de uma cidade destruída são desoladoras e reflexivas, fazendo com que o filme permaneça com o espectador por um bom tempo depois de seu fim.


O documentário não traz qualquer tipo de questionamento para o espectador - o diretor parece esperto demais para procurar por respostas fáceis. Tudo se resume as imagens captadas pela lente de Kassem, que demonstra ter uma ótima visão logo no seu segunda longa metragem.


HOT IN DAY, COLD AT NIGHT de Park Song-yeol acompanha um casal que, ao enfrentar o desemprego, entra em uma espiral de más decisões. O longa é descrito como uma comédia peculiar e, ao primeiro instante, pode lembrar alguns dos trabalhos do diretor Hong Sang-soo, que é conhecido por suas comédias naturalistas sobre o comportamento humano, mas Park não consegue atingir o mesmo nível de refinamento de Sang-soo.


O longa é dirigido, atuado e escrito por Park Song-yeol e Won Hyang-ra, que interpretam Young-Tae e Jeong-hee, mas o que deveria dar vantagem pra eles acaba por tirar um espaço de interpretação para o espectador. Ao atuar em uma história escrita e dirigidas por eles mesmos, Park e Won não deixam qualquer vestígio de ambiguidade em suas atuações, dando uma convicção completamente dispensável para as atitudes inexplicáveis dos personagens. A personalidade deles acaba se tornando um enigma porque não há qualquer tipo de aprofundamento em seus dramas pessoais, fazendo com que o desenvolvimento da história se torne algo superficial, inviabilizando qualquer tipo de conexão emocional com a narrativa.


O ritmo do longa, apesar de devagar, é um dos melhores aspectos do filme. A naturalidade com qual a história toma forma acaba lembrando o espectador da melhor característica do cinema cotidiano; a capacidade de tornar uma narrativa simples em algo interessante. Apesar de não seguir uma linha completamente crítica, o filme sinaliza como é difícil se manter em um lugar que parece não ter espaço para você.