• Vitor Miranda

VALE DO PECADO (2013)


Vale do Pecado” é um retrato pungente sobre o vazio existencial que tem assombrado o cinema como forma de arte e consequentemente as suas maiores estrelas.


Vale do Pecado conta a história de Tara (Lindsay Lohan), uma atriz que se vê envolvida em um triângulo amoroso com Christian (interpretado pelo ator pornô James Deen) e Ryan (Nolan Gerard Funk). O longa dirigido por Paul Schrader é condizente com as outras obras do diretor, que tem o costume de mostrar a humanidade como uma falha constante que se encaminha para um final cruel e doloroso. O desenrolar da história acontece de maneira niilista e existencial, traçando rumos inevitáveis causados pela ausência de compaixão e reciprocidade nas relações interpessoais retratadas pelo filme.


A crítica feita por Schrader é apresentada desde a abertura do filme com cenas devastadoras de salas de cinema completamente abandonadas e destruídas. Schrader quis mostrar como o universo cinematográfico tem se tornado vazio e negligenciado nos últimos anos. Em uma cena, Tara pondera se ela realmente ama o cinema e o seu trabalho como atriz, ou se aquilo é apenas um passatempo para que ela possa se sentir preenchida e validada de alguma maneira. É aqui que Schrader constrói uma linha tênue entre o desejo de ser amado e o vazio causado pela incapacidade de amar a si mesmo.


O tom do filme se torna ainda mais sombrio quando se realiza um paralelo entre os atores do filme e seus personagens. Lindsay que sempre foi conhecida por sua vida particular - que desde criança vem sendo explorada por grande parte da mídia americana - chega a ter um diálogo sobre como ela quer manter pelo menos uma parte de sua vida privada longe do conhecimento do público. A crueldade com que Lohan foi tratada por conta de seus problemas de alcoolismo e consumo de drogas ilícitas dão uma camada a mais para sua personagem no longa, que com certeza deve ter servido de fonte de inspiração para que Lindsay procurasse ajuda. Já James Deen, que faz parte da tóxica e abusiva indústria pornográfica, parece estar interpretando alguém com quem ele mesmo já tenha tido contato. Seu personagem é abusivo, tóxico, deliberadamente vil e castra Tara de todos os seus desejos e aspirações.



O filme muitas vezes prefere planos longos com foco na reação dos personagens com os acontecimentos ao seu redor, e com a melhor atuação de sua carreira, Lindsay Lohan abraça toda a complexidade por trás de sua personagem. Tara é infeliz, vazia, indecisa e incapaz de encontrar alguma coisa que lhe inspire, a personagem parece estar vivendo no piloto automático, sem qualquer controle sobre sua vida e suas escolhas. A única coisa que a satisfaz é o seu romance proibido com Nolan Gerard Funk. São nos pequenos momentos em que os dois estão juntos que vemos Tara com alguma forma de esperança por uma vida melhor. Mas assim como na vida real, os finais felizes são as exceções. O filme mostra que muitas vezes nós mesmos não temos o poder de escolha sobre os rumos da nossa vida e como isso pode resultar numa desolação existencial.


Ao tomar rumos perigosos e cruéis, o filme termina da maneira mais impiedosa possível. Sem saída, Tara se vê no fim da linha da chance de ser feliz e com isso, é obrigada a abraçar a sua realidade, por mais fatídica e desoladora que ela seja.


No fim, Schrader retorna para as imagens assoladoras dos cinemas abandonados e fica nítido que ele está comentando sobre a solidão que existe quando você dedica sua vida inteira a agradar e viver em função de terceiros, que muitas vezes só se interessam pelo que você tem no seu exterior, sem se importar pelos demônios e traumas que assombram sua vida.



"VALE DO PECADO" (2013)
5/5 - OBRA-PRIMA