• Lucas Granado

TURMA DA MÔNICA: LIÇÕES (2021)


Contando com uma memória afetiva que perdura por muitas gerações de brasileiros, Turma da Mônica: Lições mostra que não precisa deixar de ser criança para crescer, e também para se divertir com um bom filme.


O que sempre tivemos de maior sucesso em bilheteria nos cinemas de todo o mundo foram as franquias, que aparentemente nunca saíram de moda, mas que atualmente foram levadas a um nível elevado com a criação do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), desde o começo da última década e que vem se expandindo cada vez mais, agora no comando da Disney, responsável pelas adaptações dos quadrinhos queridos entre o grande público mundial.


Essas franquias mexem com a memória afetiva dos antigos fãs, na medida em que personagens anteriores são reintroduzidos nesse universo e fazem seu papel na história, filme após filme. No caso da Turma da Mônica, não precisava de muito esforço para criar um Universo Cinematográfico como o da Marvel, afinal as histórias em quadrinhos de Maurício de Souza são as de maior sucesso em território nacional. Os personagens e suas peculiaridades foram utilizados para educar e alfabetizar grande parte das crianças do Brasil, ou seja, não existia nada mais acessível para criar algo parecido com o fenômeno mundial da Marvel para lotar as salas de cinema brasileiras.


Turma da Mônica: Lições é o segundo da (até então) trilogia de filmes inspirados nas graphic novels dos quadrinhos da Mônica, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, distribuídas pela editora Panini, a mesma dos quadrinhos convencionais. Nesse episódio da história acompanhamos o processo de amadurecimento dos personagens. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali estão na fase da pré adolescência, por volta dos seus 12 anos de idade, e passam cada vez mais tempo juntos, o que torna-se um problema para os pais das crianças que já não conseguem mais domá-los.


Após uma tentativa de fuga da escola, que resulta num acidente com a Mônica quebrando um braço, os pais da “dentuça” decidem trocá-la de escola e separar a turma de vez. Isso desencadeia no desequilíbrio natural do universo em questão e muitas outras coisas começam a dar errado para todos. Os pais dos pequenos enxergam nessa situação uma oportunidade para corrigir os traços das personalidade mais evidentes de cada um, como por exemplo a dificuldade do Cebolinha em não conseguir pronunciar o fonema /r/, a mania de devorar comida por conta da ansiedade da Magali, e o medo da água de Cascão.


Enquanto todos fracassam em suas missões de superação, existe um distanciamento entre os mesmos, e uma boa dose de drama entrelaça o filme e os personagens (quando digo boa quero dizer uma dose exagerada). Enquanto Mônica lida com o bullying na sua nova escola, Cascão e Cebolinha também tentam sobreviver das garras do terrível Tonhão, que sempre que os encontra faz questão de dar uns cascudos. Portanto, com um plano infalível do Cebolinha para tentar recuperar o Sansão, o coelho azul de pelúcia da Mônica, que foi sequestrado por um valentão do seu colégio, os quatro conseguem se unir novamente e ensaiar uma adaptação de Romeu e Julieta para apresentar no festival da vila do limoeiro. Sendo assim, todos conseguem superar suas questões individuais através do trabalho conjunto para fazer a peça acontecer.


O filme carrega essa mensagem de aprendizado e superação através da amizade, o que é muito bonito pensando no público mais jovem que possa assistir ao filme, que vem sendo um sucesso de bilheteria e já superou seus 500 mil espectadores pelo Brasil. Além disso, pessoas que tiveram contato com os quadrinhos da Turma da Mônica na infância puderam se reencontrar com seu eu do passado e reviver esse período nostálgico com uma experiência cinematográfica e inserção de personagens novos como a Marina, Do Contra, Gênio, Tina e seu amigo Rolo, entre outros.


A direção de Daniel Rezende é realmente de encher os olhos de água. Logo na introdução do filme temos uma montagem dinâmica em que os personagens estão ensaiando para a peça e conforme fazem de conta que estão em cena observamos a imaginação deles com planos muito bem capturados e um trabalho de iluminação belíssimo. Cada personagem tem sua cor respectiva, e o cuidado do diretor com a identidade visual deles, bem como as cores que os representam, é muito evidente e bem elaborado.


Conseguimos captar a essência dos personagens pela forma como eles são apresentados na tela, e esse é o papel de um diretor que sabe da responsabilidade em adaptar essas HQs para os diferentes tipos de público. Além disso, temos elementos visuais significativos espalhados por todas as cenas, temos pelúcias do Penadinho no quarto das crianças, objetos com estampas de outros personagens dos quadrinhos, e até mesmo sacos de lixo nas cores verde, amarelo, azul e vermelho, que representam os protagonistas, é um filme cheio de easter-eggs, um verdadeiro deleite visual.


Mesmo que seja um filme infantil, o roteiro funciona para todo tipo de público, pois não é expositivo e nem preguiçoso para apenas entreter, cada fala ou pensamento citado anteriormente é usado como base para incrementar o fio narrativo da história, o que é muito empolgante. Além disso, existiu um cuidado para tratar de problemas reais como o bullying, a importância do cuidado com o meio ambiente, e inclusive, tocando em assuntos de cuidados mentais sobre ansiedade, de forma sutil e delicada. Além da equipe do texto, a fotografia, direção de arte, figurino e cabelo, fazem um filme colorido e milimetricamente calculado, sem nenhum fio de cabelo para fora. As coisas são tão coloridas, vivas e plásticas que nem parece um live action.


As performances dos atores, tanto mirins, quanto adultos são um caso à parte. É admirável a habilidade de Kevin Vichiatto (Cebolinha) de reprimir todos os fonemas /r/ do seu vocabulário, inclusive em palavras onde o /r/ vem antes de uma consoante, levando isso com muito carisma. Gabriel Moreira (Cascão) é uma doçura e consegue expressar o medo da água do seu personagem de forma convincente em suas expressões. Laura Rauseo (Magalí), por sua vez, é apaixonante, o seu timing para comédia é muito apurado e é incrível ver o potencial de humor de uma criança mesmo com adultos, a pequena atriz também consegue chorar com muita facilidade e de forma natural. Giulia Benite (Mônica) consegue ressaltar a confiança e bravura da “gorducha”, mas também nos envolve em todos os sentimentos e pensamentos que passam na cabeça da personagem através do olhar, que é muito expressivo e bem articulado por ela, uma habilidade que poucas veteranas possuem. Mônica Iozzi (Dona Luiza), é sem dúvidas o maior acerto da escalação de elenco, a humorista surpreende com a profundidade e ternura que desenvolveu seu papel como mãe da protagonista, ressalto aqui a cena em que sua personagem leva a Mônica para seu primeiro dia de aula e fica observando a filha de dentro do carro, que remete aos gestos de cuidado de uma mãe de forma extremamente bonita.


Sabemos que os filmes de uma franquia não são naturalmente um consenso de qualidade entre a crítica e o público, já vimos que desastres podem acontecer mesmo que um filme faça parte de um universo e siga essa fórmula atual de produzir sequências, como no caso de “Eternos”, recente componente do MCU. É por isso que precisamos valorizar sempre, acima de tudo, uma boa motivação para que esses filmes sejam produzidos, sendo assim teremos um ótimo resultado, como é o caso de Turma da Mônica Lições.


Deixando um gosto doce no seu encerramento, o filme realmente traz lições sobre como adaptar, dirigir e estrelar uma experiência encantadora com os personagens mais queridos da literatura brasileira, conseguindo alcançar os mais diversos públicos, divertindo e dialogando com todos eles. Com direito a uma cena pós-crédito introduzindo o personagem Chico Bento, o filme mostra que pode nos levar ainda além utilizando uma das coisas mais preciosas para o ser humano: as suas memórias da infância.


"TURMA DA MÔNICA: LIÇÕES" (2021)
4/5 - ÓTIMO