• Lucas Granado

THOR: AMOR E TROVÃO (2022)


Thor: Amor e Trovão” é uma prova de que a narrativa do herói carismático e apaixonado não se sustenta sem maiores motivações.


A sequência do universo bem estruturado e divertido de “Thor: Ragnarok” se trata na verdade de uma tentativa de criar uma atmosfera colorida e romântica em meio às aventuras do herói, o que pode ser observado muito mais no título do filme do que em seu desenvolvimento. O filme na verdade tem um péssimo desenvolvimento em todos os sentidos e acaba sendo uma experiência incompleta tanto para os fãs do herói, quanto para os desavisados que caem de paraquedas na sala do cinema para acompanhar a nova jornada desse personagem. O filme peca logo no início ao apresentar Thor (Chris Hemsworth) como um herói que já passou por tudo, e que consegue tudo de forma muito fácil e sem dificuldades, e acaba levando isso muito a sério. Depois de se tornar um ser zen e que já viu de tudo nessa vida, Thor decide se ocupar meditando em cima de uma montanha, até que um dia é chamado para salvar um mundo que está enfrentando uma guerra contra a dominação do seu templo mais sagrado. Após uma cena questionável em que o herói luta contra um exército de seres em suas mini naves espaciais, ele parece pronto e revigorado para sair junto com os guardiões da galáxia para mais emergências no espaço.


Em contrapartida o filme apresenta, logo no início, Gorr (Christian Bale) que renega o próprio deus e o mata utilizando uma espada amaldiçoada criada especialmente para isso. Enquanto Thor medita, o personagem está aterrorizando e perseguindo vários deuses e os matando aleatoriamente apenas por existirem, em busca de vingança por conta do descaso dos deuses com o seu povo que foi dizimado, incluindo sua filha. Fora essa justificativa rasa do vilão da trama, somos apresentados a uma ex-namorada de Thor, a cientista Jane Foster interpretada por ninguém mais ninguém menos que a vencedora do Oscar de melhor atriz Natalie Portman. Ao visitar um parque temático sobre o Thor e sua família, Jane é escolhida pelo antigo martelo do herói que estava exposto em uma redoma de livro e se torna a Poderosa Thor, que mais tarde esbarra com ele no meio de uma luta.


Tendo isso, Jane Foster e Thor formam uma dupla sensacional de combate ao vilão, que sequestra todas as crianças de uma vila e as prende em uma jaula em algum lugar no espaço, e apesar do casal ter muita química na luta, não convence em nada no romance. Com a ajuda de Valkiria (Tessa Thompson), que também é deixada de lado e passa boa parte do filme apenas repetindo que gostaria de bater em alguém, eles formam uma equipe que vai pedir ajuda a todos os deuses do universo para derrotar o matador de deuses.


No decorrer de tudo, nota-se um grande esforço de Taika Watiti, o diretor do filme, em agradar de todas as formas possíveis, seja fazendo graça, seja criando um clima entre os personagens principais e até tentando criar momentos dramáticos. Acontece que tudo parece faltar, e decai em determinado momento. Como na cena em que a equipe encontra-se com os deuses para avisar o que está acontecendo, é tudo muito try-hard e sem sucesso, com direito à cenas apelativas de nudez do Thor e uma discussão entre ele e Zeus, o qual chega a ser morto com pouco esforço pelo herói - novamente o filme levando a sério a descrição inicial sobre o personagem.


O filme passa boa parte mostrando essa equipe, juntos de um ser feito de pedra que acompanha o personagem principal e é interpretado pelo próprio Taika Watiti, Zork. Esse ser de pedra era pra ser o alívio cômico de muitas cenas e é o confidente de Thor, mas na verdade é irritante e seu papel cumpre uma função simples que acaba ficando dispensável. Então, essa equipe desgovernada fica andando de um lado para o outro esperando que a história faça seu trabalho por si só, como se não houvesse nada além disso para ser desenvolvido e o filme estivesse esperando dar o tempo de finalmente acabar. Demonstrando que, apesar de ser um filme curto em duração em relação aos filmes do MCU, o seu ritmo é extremamente irregular.


Sendo assim, esperamos que as atuações e performances consigam segurar essa sessão cansativa e sem rumo, porém nos deparamos com um verdadeiro show de horrores entre os atores. Chris Hemsworth está em sua pior versão do Thor. Ele parece não desenvolver as expressões com o mesmo carisma de antes muito menos convencer ao fazer uma piada, o ator força em muitos momentos um tom de voz grave na tentativa de ser um deus opressor e onipotente, mas não consegue nem mesmo encontrar consistência dentro dessa persona.


Natalie Portman é uma grande decepção nesse sentido. Além da atriz possuir um carisma negativo nessa performance, ela está totalmente robotizada e nitidamente desinteressada em entregar seu melhor. Sua personagem era uma ótima oportunidade para trazer um ar novo para a história de Thor e para o MCU, mas sua personagem só se trata de uma guerreira musculosa e bem resolvida que decide lutar ao lado do seu ex namorado em busca de saúde e motivação para salvar a própria vida. Nada disso é bem construído e a atriz escolhida não consegue entregar o fator x que a personagem requeria. Portman parece envergonhada em muitos momentos e obrigada a fazer um humor que está fora da sua zona de conforto, e isso acaba constrangendo o próprio espectador.


No final das contas, tudo é resolvido com o menor dos esforços, seguindo a fórmula clássica da Marvel de lutas constantes com o vilão até que o herói encontre seu ponto fraco e termine a história com uma luta final, que por incrível que pareça é o menos pior disso tudo. Thor concede às crianças o poder do trovão que ganham finalmente a liberdade. O desfecho do filme é em um cenário de tela verde até que bem caprichado, com um suspiro de criatividade no roteiro e uma certa emoção, mas que deixa a desejar pensando novamente na performance dos atores.


Para não deixar de lado as questões técnicas, o CGI da Marvel é o de sempre e que cada vez mais parece piorar, porém a fotografia e a arte num geral não é de todo mal e nem chegam a incomodar, levando em conta que poderia ser aterrorizante já que boa parte do filme se passa em paisagens artificiais. Alguns detalhes da computação como o elmo de Poderosa Thor são coisas realmente muito feias, parecendo um trabalho realizada as pressas por um grupo de amadores.


A direção de Taika segue a fórmula do filme anterior, mas sem o mesmo brilho, sem o mesmo carisma e sem a mesma paixão. O filme promete uma comédia romântica com muito trovão (o que não falta realmente), e muito amor, que é o que deixa a desejar. Não temos química alguma ou desenvolvimento maior desse romance, que logo se encerra em determinada parte. O que temos do que foi prometido nesse sentido é uma série de cenas com representatividade LGBTQIA+ da mesma forma superficial de sempre, um beijo na mão, um comentário corriqueiro, um relato sobre uma pedra encontrando outra pedra do mesmo gênero para se casar no final, e o que resta é o sentimento de que você foi para um rodízio mas acabou saindo com fome.



"THOR: AMOR E TROVÃO" (2022)
1.5/5 - RUIM