• Lucas Granado

THE WORST PERSON IN THE WORLD (2021)


Em um ano em que a indústria se preocupou em fazer filmes biográficos e baseados em fatos reais, a ficção de “The Worst Person In The World" consegue nos conectar muito mais com a vida real e seus dilemas.

A comédia romântica/dramática norueguesa dirigida por Joachim Trier é uma das principais apostas para a categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2022, e nós iremos te explicar porquê esse filme não deve passar batido na sua maratona pré temporada. O filme nos insere num determinado período da vida da protagonista, Julie, uma jovem adulta — interpretada brilhantemente pela incrível Renate Reinsve — que está em constante transição na sua carreira e estudos desde muito jovem. A narrativa se divide entre doze atos, um epílogo e um prólogo.


No seu epílogo uma narração nos mostra como Julie tem controle da sua própria vida de forma muito determinada, o que nem sempre é benéfico para ela e para as pessoas ao seu redor. Com a introdução da coisa mais duradoura até agora para Julie: seu relacionamento com Aksel — interpretado por Anders Danielsen Lie, um homem mais velho que ela e cartunista popular entre o público nerd de homens héteros — entendemos um pouco do novo dilema que a personagem está prestes a enfrentar. Julie se vê num casamento em que não se sente mais confortável


Durante um evento referente ao trabalho do seu parceiro ela decide ir embora mais cedo do local. Enquanto caminha sem rumo (assim sendo durante boa parte do filme), observa outra festa com pessoas se divertindo, o que para ela seria um mundo novo a ser descoberto. Ao entrar de penetra na festa a jovem tem uma noite como nunca tinha tido antes ao lado do queridíssimo e encantador Eivind, personagem de Herbert Nordrum. Porém, como ambos são comprometidos, não fazem questão de trocar nada além de experiências intensas em uma sequência divertidíssima, que ironiza o limite entre traição e amizade de forma muito consciente da parte dos dois.


É a partir disso que conseguimos notar de forma mais intensa todas as decisões difíceis a serem feitas por uma jovem adulta em constante transição. Não apenas sobre o que seguir profissionalmente, mas também envolvendo seu relacionamento e os rumos de uma possível nova paixão, sua família, sua relação com a maternidade, o uso de drogas e até mesmo a respeito da sua questão financeira.


O filme trata-se na verdade de uma obra dinâmica, que não recai em momento algum no comodismo das comédias românticas tradicionais e mergulha fundo no drama. O responsável por isso é justamente esse esquema de capítulos com suas palavras chaves a serem desenvolvidas em cada um deles, afinal, estamos observando todas as escolhas importantes que a personagem principal precisa tomar, ato após ato, como uma espécie daqueles jogos de “escolha sua própria narrativa”.



É dessa forma que o diretor também define como as questões técnicas serão apresentadas, permitindo com que o espectador aprecie momentos mais poéticos e imaginários do subconsciente da personagem, e também momentos mais sóbrios e reais que ela enfrenta no decorrer do filme como consequência de suas escolhas. O filme conta com uma combinação inteligente de roteiro, montagem e mise en scène que nos transporta entre as fases de um jogo de relações humanas e experiências muitas vezes já conhecidas por quem assiste, mas do ponto de vista de Julie.


Isso proporciona também a fruição de uma das sequências mais bonitas do ano com um final trágico e visceral, que é quando o mundo da protagonista congela ao seu redor nos fazendo acompanhar um dia lindo com seu novo amor nos moldes de La La Land (2016), e na volta para a realidade a protagonista precisa enfrentar uma discussão longa e obscura, no enclausuramento de casa, sem a liberdade e beleza das ruas sob o encanto da sua nova paixão.


A verdade é que esse filme também não seria nada sem a performance espetacular de Renate Reinsve, que entrega de forma sutil e precisa todas as emoções e pensamentos que passam na cabeça de sua protagonista numa simples caminhada no final da tarde. Isso se intensifica no decorrer do filme nos levando a entender todos os processos de amadurecimento e arrependimentos da personagem, sem contar com seu carisma realmente apaixonante e seu brilho no olhar em viver todos os momentos de Julie como se fossem reais.


Outra performance importantíssima e que deve ser reconhecida é de Anders Danielsen, que passa por momentos muito difíceis e nos apresenta um personagem masculino de forma muito honesta e sem medo de ser vulnerável, com destaque nos momentos finais do ator em cena e na forma que sua relação com a personagem de Renate se encerra.


É por isso que “The Worst Person In The World” se conecta de forma verdadeira com qualquer ser humano, pois nossa vida também é definida conforme passamos por momentos intensos e tomamos decisões difíceis, que por um momento nos causa essa sensação de ser a pior pessoa do mundo, papel ironizado pelo próprio título do filme. Essa forma brilhante de contar sobre a vida e seus diferentes percursos sem rumo em que nos encontramos, é definitivamente uma das coisas mais gloriosas a serem celebradas nas telas do cinema dessa temporada, ainda mais quando se encerra com uma deliciosa versão em inglês de “Águas de Março” de Tom Jobim.


"THE WORST PERSON IN THE WORLD" (2021)
5/5 - OBRA-PRIMA