• Alan Sambista

O ÚLTIMO DUELO (2021)


Com fortes atuações de Adam Driver e Jodie Comer, o feroz "O Último Duelo" pode não arrastar multidões ao cinema, mas arrasta um diretor de 83 anos para fazer o seu melhor em anos.

"The Last Duel” de Ridley Scott é um retrato ainda surpreendente da sociedade patriarcal e da Igreja Católica da França no século 14. O drama épico do diretor se inicia contando a história de Jean de Carrouges (Matt Damon) e Jacques Le Gris (Adam Driver), dois grandes amigos que trabalham em pró da mesma corte. Leal e habilidoso, Jean sofre com o desmerecimento da sua figura entre as autoridades, e observa que Jacques, seu amigo é mais valorizado pela nobreza o que o causa ciúme. No meio disso, Carrouges está prestes a se casar com Marguerite (Jodie Comer), a qual possui um grande dote. Devido conflitos com a Coroa, o dote da mulher é interferido pela Coroa francesa que o doa para Jacques, o que causa grande fúria à Carrouges. No momento em que os dois homens viram grandes inimigos, uma acusação de estupro é feita por Marguerite contra Le Gris. A acusação vira uma "fofoca" entre todos os pilares da pirâmide até que finalmente chega ao rei, que se vê obrigado a iniciar um processo sobre o caso.

Apesar de ser uma história simples, é interessante observar como o longa é cuidadoso com cada linha do roteiro.


Dividido em três atos, Scott mostra em cada ato a ótica dos personagens sobre a situação. O primeiro ato é o de Jean de Carrouges, que introduz todos os acontecimentos gerais do ocorrido - sua amizade com Le Gris, como conheceu Marguerite e o que esteve fazendo até chegar ao momento do julgamento, o qual Carrouges desafia o estuprador de sua esposa à um duelo. Matt Damon está bem, ele entrega o necessário em sua interpretação. Em sua visão sobre a história, ele é um marido forte, dedicado e totalmente leal à Coroa, e ele não hesita em acreditar na acusação de Marguerite, dando apoio e continuidade ao desejo de justiça da mulher.


No segundo ato, Jacques Le Gris tem espaço para contar sua história. Um cavaleiro estudado, meigo, simpático e sedutor. Íntimo do rei Charles VI (Ben Affleck), Le Gris vive o melhor da luxúria, cercado dos grandes jantares e orgias da nobreza. Ele defende Carrouges, mesmo quando tem fúria de ter sido processado pelo ex-amigo. Porém, só decide se reconciliar com ele para promover a harmonia entre os combatentes da nobreza. Em decorrência desse evento, Jacques Le Gris vai dizer que ele e Marguerite de Carrouges se apaixonaram perdidamente e ela o acusou de estupro injustamente.

É incrível como o filme usa a repetição dos acontecimentos nos três atos, por mais seja cansativo devido à longa duração, é essencial para que se complementem e exponham as divergências que são "vistas" pelos próprios personagens quando estão na posição de guiar a história. O contraste perfeito de todos as visões pode ser vista quando finalmente a vítima da história, Marguerite de Carrouges, ganha o terceiro e último ato.


Neste ato, observamos uma sociedade de homens machistas e selvagens por todo lado. Marguerite (Jodie Comer), vista como uma mulher frágil, silenciosa e desleal, é completamente diferente do que os dois homens a viam. Ela é uma esposa leal e independente, entendida de si, habilidosa com os negócios da família. Uma mulher à frente do seu tempo, que era desmoralizada pelo seu marido primitivo e cego pela própria vaidade (como a mesma diz). Jean reage à acusação de estupro a esganando com as mãos, resmungando e demonstrando preocupação apenas com a sua rivalidade com Jacques. Não existe romance algum entre Marguerite e Le Gris, ela foi enganada, abusada e silenciada. Jacques Le Gris é um homem manipulador, sujo e dominador, que criou uma realidade inexistente para conseguir o que queria. É pesado quando o filme nos leva para a mesma cena de estupro, dessa vez pela segunda vez. É assustador, angustiante e deprimente.


A interpretação de Adam Driver tem nuances tão maquiavélicos, chega a assustar, ele está muito bem. Porém, nada supera Jodie Comer neste papel. Ela entrega as três versões de Marguerite com uma facilidade, é absolutamente incrível. É impossível não defendê-la desde que ela denuncia o ocorrido. Ela merece, no mínimo, uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. As sequências no julgamento são desconfortáveis, é impossível não se irritar com toda a situação. O roteiro age muito bem nessas cenas, é como se Marguerite estivesse num tribunal nos dias atuais.

A sequência final de "O Último Duelo" mostra o famigerado duelo entre os ex-dois amigos, que agora estão lutando pela honra de suas famílias e nomes. Neste longa bem produzido de Ridley Scott, o final aparenta ser um confortável abraço nas vítimas de abuso sexual, mas observando aos olhos da Marguerite de Jodie Comer, é perceptível que ela está completável desconfortável por todo o acontecido. Mas ainda assim, não hesita em abraçar e torcer por Jean, afinal, ela precisa de sua vitória para que sua verdade prevaleça.


"O Último Duelo" é forte, feroz e eficiente. É um filme que não arrasta multidões ao cinema por conta da sua temática ainda problemática, mas que merece uma chance ao arrastar um diretor de 83 anos para trás das câmeras para fazer o seu melhor filme em anos.


O ÚLTIMO DUELO (2021)
4/5 - ÓTIMO