• Vitor Miranda

NÃO OLHE PARA CIMA (2021)


“Don’t Look Up” é uma sátira que, ao descartar sutilezas, abraça um tom sadista no seu retrato sobre a negação de uma realidade devastadora.


Adam McKay é um diretor/roteirista que parece ter aversão a qualquer tipo de sutileza narrativa, todos os longas dirigidos por ele possuem diversas cenas expositivas e didáticas, mas dessa vez os esforços do diretor parecem ter surtido efeito. O que não funcionou em “The Big Short” e em “Vice” foi o fato do diretor tomar a posição de mestre sobre os temas e tratar todos os espectadores como leigos nos assuntos abordados, claro que existem cenas do tipo em “Don’t Look Up”, mas aqui o diretor parece ter consciência disso e usa dos personagens de Jennifer Lawrence e Leonardo DiCaprio para retratar a si mesmo.


O filme conta a história de Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), dois cientistas que descobrem que existe um meteoro a caminho da terra que provocaria a destruição da humanidade. Eles procuram avisar a todos sobre isso, mas os seus esforços não possuem efeito, pois todos se recusam a enxergar e aceitar essa realidade que os aguarda. Os políticos e a mídia corporativista são cínicos e até mesmo caricatos - acredito que ninguém que acompanhe a carreira do diretor espere que esse personagens fossem abordados de forma diferente.


O que fortalece o filme é o ótimo elenco que tem total consciência do tom narrativo da história, tendo Jennifer Lawrence como o destaque do filme. A atriz que retornou às telas depois de uma longa pausa na sua carreira não poderia ter escolhido um papel melhor para essa retomada. Lawrence, que teve problemas com a mídia ao longo da sua carreira, entende perfeitamente o que sua personagem está passando. Acredito que McKay tenha usado dela tanto para realizar um comentário sobre si mesmo quanto sobre a própria atriz. Ela possui uma língua e personalidade afiada que a coloca numa posição delicada com a mídia e as redes sociais. Outros atores como DiCaprio e Cate Blanchett também estão muito bem em seus respectivos papéis, mas por algum motivo parecem menos importantes que Lawrence.


Ao perceber que seus esforços foram em vão, os cientistas desistem de tentar alertar a população. Enquanto Kate volta para sua vida normal trabalhando como caixa em um supermercado, Randy se vende aos políticos e a mídia, participando de diversas tentativas de amenizar o que está por vir. O último ato do filme pode ser comparado como uma versão hiperbólica de “Melancolia” (2011), onde todos os personagens perdem qualquer tipo de esperança sobre os seus destinos e passam a se conformar com o fim inevitável. É durante esse ato que o filme consegue quebrar a ideia de que é apenas uma simples sátira. Sem perder o bom humor, McKay mostra as consequências que o negacionismo causou à humanidade de maneira sincera, com uma cena final de partir o coração.


É na ausência de sutilezas que o filme funciona. As ações piegas e exageradas nunca soam absurdas, pois nos últimos anos tivemos vários exemplos de líderes mundiais minimizando assuntos importantes para benefício próprio. O filme funciona como uma óbvia crítica a governos como o de Trump, sendo representado por Meryl Streep e a milionários com complexo de salvador como Elon Musk, interpretado por Mark Rylance.


Com Meryl assumindo o papel da Presidente Janie Orlean, McKay usa mais uma vez acontecimentos externos dos realizadores e participantes do projeto para ajudar a moldar história do longa. Meryl Streep possuí uma rixa com Donald Trump, que fez uma série de declarações ofensivas a atriz, e no filme ela tem o direito de resposta ao ridicularizar Trump e seus apoiadores. Além das óbvias ironias como a frase de efeito "Não Olhe Para Cima", criada para minimizar a ameaça do meteoro, a presidente também se vê envolvida em um escândalo sexual que ameaça sua credibilidade como política.


"Don't Look Up" é o trabalho mais autoconsciente de McKay, que tem noção total da sua maneira agressiva de ser didático. O filme é quase um comentário direto aos críticos de seu trabalho, se tornando uma espécie de mistura entre "Lady in the Water" de Shyamalan, "Melancolia" de Lars Von Trier, "Network" de Sidney Lumet e até mesmo do seu último trabalho em "Vice".


"DON'T LOOK UP" (2021)
4/5 - ÓTIMO