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CRIMES DO FUTURO (2022)


É através da mudança que nós, indivíduos de uma sociedade, nos adaptamos ao redor da nossa realidade. É difícil imaginar qualquer forma de evolução senão através da mudança. Seja ela voluntária ou não, isso faz parte da sociedade e da maneira com qual nos relacionamos com o mundo exterior. Émile Durkheim acreditava que a sociedade era essencialmente uma ferramenta de modelação do comportamento humano, e, seguindo sua linha de raciocínio, pode se dizer que o ambiente em que vivemos está diretamente interligado com a nossa maneira de evoluir, seja física ou psicologicamente. A transgressão corporal presente em Crimes of the Future nada mais é que uma resposta do corpo a sociedade em que ele está inserido e, apesar do choque causado pela natureza exterior do filme, a verdadeira complexidade é mais psicológica do que visual.


O filme acompanha Saul Tenser (Viggo Mortensen) e Caprice (Léa Seydoux), um casal de artistas que trabalham com exposições de órgãos humanos. Saul possui uma espécie de desenvolvimento acelerado de órgãos, ocasionando em uma série de remoções que acabam fazendo parte do show da dupla. Ele rejeita os novos órgãos e os trata como tumores que crescem em seu corpo contra sua vontade. Numa sociedade distópica onde não existe dor, a retirada desses órgãos não se tornam nada além de expressionismo nas mãos de Saul e Caprice. Uma sociedade acostumada a não sentir nada se vê atraída diretamente para esse tipo de apresentação, talvez na busca de sentir algo novamente. O filme desde o princípio deixa bem claro a sua natureza visceral, mostrando uma mãe matando o próprio filho após presenciar uma cena onde ele digere um vaso de plástico. O filme trabalha bem com o processo de rejeição que afeta os personagens. Seja Saul com seus órgãos ou essa mãe com seu filho, a inexistência do sentimento da dor acaba por facilitar as vontade dos personagens, que parecem agir da maneira mais fria possível.


As performances artísticas de Saul e Caprice os levam a conhecer Wippet (Don McKellar) e Timlin (Kristen Stewart), que trabalham como registradores de órgãos. Stewart entrega uma performance peculiar, lidando com os maneirismos da personagem de maneira um pouco exagerada, mas que funciona bem com o tom do filme. Ela é curiosa e completamente fascinada por Saul, e Stewart consegue transparecer bem os desejos que afetam suas decisões.


Outro grande núcleo do longa é o de uma organização secreta liderada por Lang Dotrice (Scott Speedman), pai do menino morto no começo do filme. Lang lidera a causa dos comedores de plástico, que nada mais são que seres humanos com o sistema digestivo evoluído. O detetive Cope (Welket Bungué) procura Saul para que ele possa se infiltrar nesse submundo dos comedores de plástico de maneira em que ele possa ajudar a polícia contra esse grupo subversivo.


Para esta sociedade, a beleza interior é muito mais importante que a exterior, então diversos processos cirúrgicos são realizados para fazer com que o externo capture a atenção desejada. O concurso de beleza interior é um dos grandes exemplos de como o filme insinua que a sociedade possui um fascínio pelo desconforto e situações que remetem à dor. Há de se esperar que esse sentimento fosse algo que afastasse as pessoas, mas em um mundo onde eles se esquecem do real significado dessa sensação, qualquer rastro de sofrimento é acolhido com voracidade.


Sem entrar em alegorias que podem ser interpretadas pela rejeição da natureza de órgãos humanos, a real mensagem de Crimes of the Future é muito mais do que os olhos veem. Apesar de alguns diálogos expositivos, o filme rejeita uma linguagem direta e fácil de ser digerida, lidando com os aspectos do filme de maneira aberta para interpretações e sem respostas óbvias. Cronenberg dá um tom único a essa história, seja através do roteiro complexo ou da direção violentamente gráfica. Assim como os espectadores das performances de Saul e Caprice, Cronenberg também faz com que os espectadores do longa se sintam compelidos à desconcertante mutilação física e emocional dos personagens.


Dentro dos aspectos técnicos do filme os dois grandes destaques são o design de produção - que acompanha esse futuro distópico de maneira desoladora - e a maquiagem que ajuda a construir a transformação física dos indivíduos dessa história. Os dois funcionam de maneira ímpar para construir o tom e atmosfera do filme de maneira convincente. Ao evitar uma visão óbvia e tecnológica do futuro, o filme subverte o real significado de tempo e evolução da humanidade.


O elenco do filme carrega grande parte da história. Enquanto Kristen Stewart dá peso ao seu pequeno tempo de tela, Viggo Mortensen e Léa Seydoux dominam todo o resto. Mortensen dá alma a esse personagem que sente prazer na mutilação do próprio corpo, transformando a sua atração por esse tipo de violência em algo completamente fora de compreensão. Os verdadeiros sentimentos de Viggo nunca transparecem em sua atuação pois sempre existe um ar enigmático atrás de suas ações. Ao ser perguntado pelo detetive se ele estava começando a acreditar na causa subversiva dos comedores de plástico, ele respondeu que às vezes é necessário acreditar quando queremos entender algo, e isso define a relação que o espectador tem com seu personagem. Talvez os reais motivos dele sejam mesmo incompreensíveis, mas nós acabamos acreditando neles em buscas por respostas. Seydoux, que interpreta sua parceira, também possui seus próprios segredos. Léa entrega uma performance mais introspectiva - com exceção de uma cena durante o clímax da personagem. Os seus desejos são internalizados e muitas vezes subentendidos, pois ao contrário do que acontece com Saul, ela nunca externa sua verdade. É um trabalho fantástico de uma das atrizes mais empolgantes do cinema atual.


Muito mais do que um show de body horror, Crimes of the Future pode acabar soando como uma ideia inacabada de um filme muito maior, mas a verdade é que Cronenberg eleva a história de maneira que só alguém que domine o gênero conseguiria fazer. Nesse caso, a narrativa aberta não significa uma ideia mal amadurecida, mas sim uma gama de possibilidades que transformam o filme em um dos trabalhos mais complexos do ano. Por trás de toda a violência e brutalidade do filme, há um comentário excruciante sobre a necessidade humana pela aceitação.



"CRIMES DO FUTURO" (2022)
4.5/5 - EXCELENTE