• Vitor Miranda

CAFI


Parte da cobertura da Mostra de Tiradentes.

Singelo e reverente, 'Cafi' atravessa a narrativa documental e se torna um retrato do passado, das memórias e da história do nosso país. O longa dirigido por Natara Ney e Lírio Ferreira encanta e ânsia até quem não conhece as obras de Carlos Filho.


Através da narração de Carlos Filho, acompanhamos a sua trajetória por Recife como se estivéssemos em um tour com um guia da cidade. Todos os ambientes que visitamos contam diversas histórias sobre o fotografo e sobre o próprio local, como se todos esses lugares fossem um acúmulo de acontecimentos com um rico passado sentimental e nostálgico.


Não é preciso ser familiar com o trabalho do fotógrafo para que se possa aproveitar o longa, visto que o filme não parece estar preocupado com isso. O que os diretores querem passar é a sensação de que todos os encontros, acasos e relacionamentos da nossa vida são importantes, ecoando pela eternidade enquanto envelhecemos. É uma carta de amor às nossas memórias como indivíduos, utilizando delas para construir o país que vivemos não apenas como um pedaço de terra, mas sim como uma longa caminhada onde deixamos nossas marcas enquanto passamos.


Mesmo que não seja o intuito do documentário, o impacto de Carlos Filho na história do Brasil é inegável. Com um ótimo trabalho de edição, observamos o seu trabalho enquanto o fotógrafo conta histórias sobre esses. Vamos da criação de álbuns como Clube da Esquina de Lô Borges e Milton Nascimento e Transa de Caetano Veloso para imagens de tribos indígenas, que servem de exemplo para mostrar que, de todas as formas, o Brasil é um país rico culturalmente.


O filme pode não ser inovador, visto que pode ser facilmente comparado a um outro grande documentário como 'Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou", mas isso não diminui a riqueza da obra e das memórias que ele resgata. Os dois filmes trabalham com o legado de grandes artistas brasileiros, cada um com seu impacto e suas individualidades. Enquanto Babenco é uma carta de amor ao cinema e ao grande diretor, Cafi é mais como uma homenagem a história do país, mesmo que isso aconteça de forma mais íntima durante os diálogos do fotógrafo com seus conhecidos.


Os aspectos técnicos do longa são extremamente refinados. A edição é inteligente e dinâmica, misturando o passado e o presente, a memória com o atual, o velho com o novo, e a fotografia trabalha junto com a edição nesse quesito. Com um filtro preto e branco, a intenção do filme é fazer com que pareça que nós estivéssemos assistindo relatos antigos, quando na verdade o filme mostra o presente. Com delicadeza, a fotografia celebra a história de Recife, que nunca esteve tão bonito como nesse nesse filme.


O preto e branco que serviu para relatar o passado e homenagear as mais simples memórias ficaram para trás, pois ao ganhar cores no final do filme é como se os diretores tivessem decidido que, a partir daquele momento, tudo faria parte do agora e do futuro.


"CAFI" (2021)
4/5 - ÓTIMO