• Alan Sambista

BROKEBACK MOUNTAIN (2005)



Brokeback Mountain é perfeito. Desde então, o melhor trabalho de Ang Lee. A história é tocante, dói o coração. Tem uma relevância imensa para o cinema, visto que quebrou um paradigma grande do que seria um filme "gay" aos olhos do público e de um longo grupo de críticos de cinema. Já se passaram 16 anos e continua relevante e o melhor filme gay já feito na história.


A direção é real, crua, exibe com magnitude o tamanho imenso dos sentimentos dos personagens. Sinto em cada enquadramento, a angustia do que era ter um amor proibido e não poder vivê-lo. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são Ennis e Jack, respectivamente. Não existia ninguém melhor para tomar os seus papéis. Interpretações que mergulharam em seus personagens, parecia que tudo era real.

Essa figura de um brutamontes do sul dos Estados Unidos nos anos 60, o maior exemplo de masculinidade e virilidade - o tal cowboy "machão" nos moldes de Clint Eastwood, que mal abre a boca e exala brutalidade. Ennis é diferente, ele passou uma grande parte da sua vida calado e guardando seus sentimentos mais puros, vivendo e crescendo dentro de uma sociedade ignorante que jamais o compreenderia. Heath Ledger faz com perfeição, não é possível ver outra pessoa neste papel. Seu Ennis se reprimia tanto, teve que se enganar por tantos anos a ponto de ficar preso na própria mentira. O silêncio de Ennis parecia ter falas - de tão bom que ele está.

Ele é tão medroso, um verdadeiro covarde para assumir o grande amor de sua vida. E amar foi uma tortura pra ele, literalmente. É cada vez mais angustiante ver o Ennis respirar e viver através de uma série de mentiras para não ser um alvo da sociedade, como ele mesmo deixa bem explícito o tempo todo. As melhores cenas do filme são quando Ennis e Jack estão juntos, apenas os dois.

Nós vivemos intensamente o que eles dividem para si, é tão bonito. Quando eles se reencontram, se despedem, se juntam novamente. As falas contidas, os olhares, os sorrisos de ambos.


O modo como Jack fazia Ennis ser feliz, o fazendo sorrir, falar, viver, é um triunfo para os olhos. Eles se completam de uma forma gigantesca. E é exatamente como próprio slogan do filme destaca:

"O amor é uma força da natureza".

É incrível como Ang Lee tem uma ótica sacramentada para o filme, principalmente no primeiro ato, onde o casal é contratado para tomar conta do rebanho de Joe Aguirre. As sequências com ovelhas são belíssimas, parece que os dois personagens estão num paraíso biblíco, uma bela crítica ao conservadorismo religioso que contribuiu diretamente para a construção social da homofobia. Isso fica comprovado nas jogadas do roteiro, que explora diálogos e conflitos sobre pecado, religião e família com os próprios personagens. Afinal, estamos falando do romance entre dois homens que tem como cenário - uma montanha e basicamente, eles estão exercendo a figura do pastor, que é importante no contexto bíblico do catolicismo. Como diria o famoso Salmo 23:

"O Senhor é o meu Pastor: nada me faltará (Salmos 23:1-6)".

O pastor na Bíblia Católica deve ser aquele que cuida e zela das suas ovelhas. Ter amor às ovelhas é abrir mão de regalias à favor delas, se sacrificar, dar a vida para preservar a segurança de todo o seu rebanho. Um fator interessante, visto que Ennis e Jack não conseguiram garantir a segurança do rebanho de McAguire, já que estavam sendo desvirtuados da função para viver um amor intenso.

"Fale por você. Você pode ser um pecador.
Mas eu ainda não tive a oportunidade."

Enquanto Jack tinha seus planos de viver intensamente aquele romance, Ennis pensava no que os outros iriam pensar. Suas memórias de infância o assombravam, ele não era "macho" o suficiente para enfrentar aquilo. Só que por mais que os dois se afastassem, o amor os juntava novamente mais uma vez na montanha Brokeback.


Existe um símbolo dentro desta concentração dos dois na montanha, principalmente no catolicismo, onde as montanhas são consideradas os locais de encontro do céu e da terra.

As religiões monoteístas afirmam que as montanhas são as moradas dos deuses e divindades, e lá existe a maior extração de pureza de toda à natureza. No filme, a montanha se torna uma morada divina para Jack e Ennis, eles vivem todos os seus momentos em Brokeback, é como se a montanha fosse o alicerce dos dois, os mantendo juntos longe da sociedade, por um longo tempo. A direção do filme consegue abraçar essa idéia, extraindo um ar de grandiosidade atráves da fotografia do filme e a abordagem do conto, que torna a montanha fisicamente e espiritualmente viva.

"Eu queria saber como deixar você"

Foram tantos anos que se passaram diante de toda aquela problemática, que vemos o Jack surtar porque a vida dos dois se enfiou numa grande contramão e eles nunca mais conseguiram sair, ele simplesmente não aguentava mais viver aquela montanha. Essa fala dita por Jack é a coisa mais pesada que Ennis poderia ouvir, após viver o que eles viveram durante todos aqueles anos. A cena é totalmente perfeita: o homem forte mostra fragilidade e chora nos braços do seu grande amor, é pura arte. Tudo o que eles tinham [planos, memórias e lembranças] estavam enraizados em Brokeback. E esse é o apice da atuação de Jake Gyllenhaal no longa, seu desenvolvimento é muito bom de ver de perto. Vemos o seu Jack sofrer e sofrer, mas quando ele explode é como uma bomba-relógio.


O desenrolar final de Brokeback Mountain é quase um soco bem na cara. Parece que cai a ficha do que era o mundo real, não apenas para os personagens, mas pra nós - espectadores. O nosso brutamontes marrento fica solitário para enfrentar o resto da sua vida, calado, se afastando cada vez mais de sua antiga família. Se culpando todos os dias por não ter assumido o amor de sua vida.

Quando Ennis visita a família de Jack, encontra uma realidade que não esperava - a família sabia de ambos e aparentemente, estava tudo bem. Tudo fica mais dolorido quando Ennis visita o quarto de quando Jack e observa seu quarto - pinturas, cavalos de madeira, uma pequena mesa ao lado de uma janela, estes eram os sonhos de um jovem garoto, que sonhava. Quando Ennis encontra a sua desaparecida camisa manchada de sangue, e percebe que Jack a guardou após todos esse anos. Jack usou esta jaqueta para limpar o sangue de Ennis após de uma briga dos dois em Brokeback em 1963.

Ele vestiu a jaqueta por cima da camisa de Ennis, uma das simbologias mais excepcionais que já vi no cinema. Quando Ennis abraça a camisa, parece que Ang Lee aperta nosso coração com as suas próprias mãos. Dói muito. E só piora. Quando Ennis vai embora daquele rancho distante da família de Jack, imagina o que teria sido se os dois tivessem vivido juntos. O enquadramento do Lee no momento em que o Ennis vai embora do rancho, é cortar o coração.

Dá pra sentir o tamanho vazio que ele sentia ali. O modo como o roteiro é cuidadoso durante todo o longa, como as cenas são feitas com mínimos detalhes para construir essa história, é tudo tão grandioso. E é isso que torna 'Brokeback' tão bom, existe uma paixão em dirigir essa história. O desfecho final é necessário de várias formas, por mais sofrido que possa ser. A morte de Jack mostra o quanto a homofobia enraizada na sociedade é destrutiva e repugnante, impedindo desde o começo que o amor de Ennis e Jack pudesse ser vivido publicamente. Por mais Jack tivesse coragem suficiente para enfrentar tudo ao lado de Ennis, o homem que era forte por fora, era fraco por dentro. Não por sua culpa, mas pelos fantasmas do passado que nunca o deixou viver de verdade com Jack.

Nos minutos finais, Ennis vive sozinho agora, sua filha é a única que o visita às vezes. Mesmo assim, ele se mantém afastado. Agora vive sozinho em seu trailer, carregando um remorso que parece contínuo, revivendo as memórias com Jack de quando se sentia amado observando e remexendo aquela jaqueta velha e manchada de sangue, que abraçava sua camisa abotoada. Mas dessa vez, ele inverte as peças, ele coloca sua camisa por cima da jaqueta de Jack, como se ele o abraçasse e o cobrisse com todo seu amor. Essa cena é a coisa mais delicada e linda que eu já vi em um filme de romance. E quando a camera de Ang Lee enquadra o seu guarda roupa com a jaqueta e ao lado um dos velhos cartões postais temáticos da montanha Brokeback que Jack enviou para Ennis, os olhos de Ennis se enchem de lágrimas e ele promete que nunca iria esquecê-lo.


Ao fundo, toca a canção The Wings, causando um grande vazio na alma e machucando corações por todo o globo. E se torna mais dolorido, ainda mais quando você percebe que nem Jack e nem Ennis disseram "eu te amo" um para o outro e isso é o que mais dói. Afinal, era tarde demais para dizer isso.

O lançamento desse filme foi tão necessário, volto a repetir, basta observar o tanto de boicote que sofreu no mundo. A polêmica que foi enorme para a época. Um filme sobre dois cowboys do sul dos Estados Unidos que se apaixonam. O Oscar em si boicotou o filme ao não premiá-lo em Best Picture, devido o tamanho conservadorismo entre os votantes da Academia. Esse é um dos maiores erros da história do Oscar, se não for o maior.

Por fim, 'Brokeback Mountain' é sobre instinto, sobre viver intensamente um amor a ponto de levá-lo até o final da vida - mesmo que seja escondido. É poderoso e épico, uma obra de arte do cinema moderno. Ang Lee vai penar, porque nunca vai superá-lo. Não há defeitos aqui. É uma verdadeira experiência, você consegue sentir o longa em todas as partes, seja na cenografia, elenco, atuações, direção, roteiro, soundtrack, edição é um verdadeiro triunfo cinematográfico.


Depois de anos e anos vendo cowboys machistas e suas armas sacadas em meio ao old west americano, vemos um western sobre dois cowboys que enfrentaram a sociedade (cada um do seu jeito) lidando com os "pecados" e fantasmas do passado, ultrapassando todos eles para poder viver um pouco do puro e belo amor que eles tinham um pelo outro. É trágico? Sim, mas é tão bonito de se ver que hoje fazem 16 anos de lançamento de 'Brokeback Mountain' e o longa continua sendo tão grandioso quanto no dia que foi lançado em 8 de dezembro de 2005. O longa sobreviveu ao tempo, inspirou outros filmes LGBT+ e claramente, viverá por gerações.


'BROKEBACK MOUNTAIN (2005)'
5/5 - OBRA-PRIMA

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