• Vitor Miranda

BELFAST (2021)


Na tentativa de realizar um trabalho passional, Kenneth Branagh não consegue dar vida a “Belfast”, um filme que aparenta ser mais um projeto egóico do que uma obra cinematográfica.


O filme semi biográfico de Branagh tem como objetivo servir de carta de amor à cidade de Belfast, mas o longa é constantemente minado pelo desespero do diretor, que parece estar mais interessado em ser levado a sério do que em realizar um trabalho consistente. O filme é milimetricamente calculado, o que o torna engessado e faz com que tudo parece ensaiado e artificial. Acontece que, esse tipo de história familiar precisa ser capaz de estabelecer um laço emocional com o espectador, caso contrário, é difícil se importar com os dilemas que os personagens passam.


Branagh também foi responsável pelo roteiro do filme, o que acaba tornando todas as escolhas tomadas por ele na direção ainda mais questionáveis.”Belfast” não possuí uma história direta, o filme conta a história sobre conflitos da cidade pelos olhos infantis do protagonista, que se vê envolvido em um romance escolar e uma guerra civil. A escolha de contar essa história partindo da ótica infantil é mais uma tentativa de Branagh de tornar o filme em algo doce e carismático, mas essa tentativa não se restringe apenas ao menino, o diretor também utiliza os avós da criança como mecanismo de manipulação para conseguir simpatia. O objetivo de tudo isso é realizar um filme água com açúcar e acessível para todos os públicos, como “A Vida é Bela” e “Jojo Rabbit”, com a esperança de alcançar o sucesso dos citados nas premiações.


As comparações com “Roma” são compreensíveis até certo ponto, visto que ambos são Oscar Baits camuflados de filmes passionais de seus realizadores. Assim como Cuarón, Branagh reduz personagens e narrativas aos maiores clichês narrativos. Pais com crises no casamento, comentários políticos superficiais e a falsa sensação de genuinidade. Aliás, genuinidade é a maior escassez do longa. Nenhum sentimento conquistado pelo filme é merecido, pois não existe uma recompensa significativa ao espectador. Branagh banaliza o movimento civil ao tornar a família principal imune aos acontecimentos. Em uma das sequências mais cafonas do ano, ele bota isso a prova, dando um heroísmo caricato ao personagem de Jamie Dornan.


Inclusive, Jamie Dornan é o único fator positivo do filme. O ator (que ainda sofre por sua imagem como Christian Grey na franquia de “Cinquenta Tons de Cinza”) possui o carisma e a presença de tela que o filme precisava para se tornar assistível. Dornan possui todos os elementos necessários para construir o personagem de chefe de família. Ele é apaixonado por sua esposa e faria tudo por seu filho, e o ator consegue transparecer isso em todas as suas cenas. Caitríona Balfe passa grande parte do seu tempo em tela chorando e lamentando a situação em que está inserida. Na busca do Oscar, a atriz exagera em algumas cenas, mas nunca é capaz de transmitir verdade ou complexidade a sua personagem, que entra no hall de esposas e mães sofridas do cinema. Os avós do protagonista, interpretados por Ciáran Hinds e Judi Dench, não fazem nada que outros atores não fariam em seus respectivos papéis. São personagens rasos que não acrescentam em nada na narrativa, e possuem como única finalidade manipular as emoções do espectador.


Ao final, é possível perceber como o filme não passa de uma rasa e fracassada tentativa de Branagh de se tornar um diretor respeitado. O diretor que vem de uma sequência de fracassos mira numa perspectiva europeia em busca de prestígio e utiliza de artifícios baratos para criar essa farsa cinematográfica que, sem dúvidas alguma, não resistirá ao teste do tempo.


"BELFAST" (2021)
1/5 - PÉSSIMO