• Vitor Miranda

AMOR, SUBLIME AMOR (2021)


A nova adaptação de "West Side Story" é o exemplo perfeito de que nem mesmo uma direção revigorante pode mudar os rumos questionáveis e datados da trama do musical.


Apesar de ser um grande fã da Broadway e de musicais, sei que muito dos produtos feitos para teatro não são capazes de se tornarem filmes que alcancem a qualidade original da matéria prima e esse é o caso de "West Side Story".


O musical que teve sua primeira adaptação cinematográfica no ano de 1961 sempre sofreu por conta de sua trama datada, mas não é certo analisar uma produção da década de 60 com um olhar atual. A escalação dos atores latinos na nova versão do musical é um acerto e mostra como Spielberg estava disposto a fazer mudanças necessárias para tornar a história o mais atemporal possível. Acontece que, nenhum sentimento que o filme requer do espectador é genuíno. A paixão dos protagonistas, que é o principal assunto do musical, é algo capaz de criar dúvidas até nos que acreditam em amor a primeira vista. Todo o relacionamento acontece de uma maneira muito inorgânica e apressada, o que acaba dificultando a criação de uma relação emocional entre o espectador e os protagonistas e a escassez de química entre Ansel Elgort e Rachel Zegler torna toda a situação ainda mais complicada.


Ansel nunca foi um ator versátil, mas a ousadia de se jogar em um papel desse nível é respeitável. Até certo ponto do filme ele consegue lidar bem com o dilema interno que o personagem passa, mas as suas expressões repetitivas se tornam cansativas e ele não consegue manter o nível de sua performance. Quando o filme exige que Ansel entregue uma cena dramática durante o clímax de seu personagem, o ator falha e é como se uma farsa tivesse sido revelada. Tudo que Ansel conquistou - ou não - ao longo do filme desmonta em frente ao espectador. Para combinar com seu parceiro no filme, Rachel Zegler comete o mesmo erro. A atriz estreante recebe alguns passes livres por sua afinação vocal e inexperiência como atriz, mas todos os momentos em que o filme exige alguma emoção dramática de sua personagem, Zegler decepciona. O relaxamento da atriz é tão distrativo que torna um dos momentos mais dramáticos do filme em uma cena qualquer, fazendo o espectador questionar se ela realmente entendeu o que havia acontecido. Mas se de um lado temos os protagonistas inexpressivos, do outro temos os atores secundários que roubam o filme.



Mike Faist e Ariana DeBose são deliciosamente carismáticos e versáteis. Os dois atores entregam tudo que lhes é requerido ao longo do filme, seja nos números músicas ou nas cenas dramáticas. O destaque maior é pra Ariana DeBose, que baseado nessa atuação merece se tornar uma das maiores estrelas da nova geração. Além da presença de tela estratosférica, a atriz também consegue entregar cenas de partir o coração. DeBose rouba o filme para si e faz com que o público desejasse que o longa fosse sobre sua Anita, uma personagem muito mais complexa e interessante que Tony e Maria.


Os aspectos técnicos do filmes são de maioria irretocáveis, principalmente a fotografia ímpar de Janusz Kamiński, que filma as sequências musicais com primor. O design de produção também é impecável e ajuda a transformar o bairro em um dos personagens principais do longa. Apesar dos grandes problemas do roteiro, é inegável a qualidade da direção de Spielberg. A visão do diretor para essa história me fez questionar quão melhor o filme teria sido se a história fosse mais consistente e interessante.


O que mais atrapalha o desenvolvimento do filme não são as conveniências e clichês criados pelo roteiro, mas sim a falta aprofundamento de todos os personagens. Essa história de amor proibido baseado em Romeu e Julieta é muito básica para explicar a paixão aparentemente incontrolável de seus protagonistas. Não existe nenhuma explicação lógica para os sentimentos de Tony e Maria, a maneira de como ambos se priorizam e se botam na frente de familiares e amigos é algo incompreensível que acaba tornando todas as ações dos personagens em algo desconcertante.


Apesar de irregularidades do roteiro e atuações inconsistentes, a nova versão de "West Side Story" merece ser vista pela ambição e a paixão de grande parte dos envolvidos no longa, que deve ser o suficiente para entreter alguém que esteja disposto a relevar os erros da adaptação.


"WEST SIDE STORY" (2021)
2/5 - FRACO