• Alan Sambista

A TRAGÉDIA DE MACBETH (2021)


O novo filme de Joel Coen, "A Tragédia de Macbeth" é um campo de teatralidade gótica de extremo bom gosto. A história que é sobre ambição e poder, tem ares de obscuridade em toda sua estrutura. O minimalismo cinematográfico de 'Macbeth' traduz toda escuridão em torno da obra de Shakespeare, que vira um horror nas mãos do diretor e por incrível que pareça, deixa a atmosfera tão excêntrica que o filme parece ter sido feito no século passado. Coen prova que não perde sua excelência, sendo um excelente diretor de histórias, por mais desafiadoras e arriscadas possam ser. Afinal, adaptar obras teatrais nunca é fácil e pode acabar não funcionando para o público e muito menos para a crítica especializada. O fato é que a magnitude na criação de 'Macbeth' está em todos os lugares, ultrapassando até a incansável e batida 'tragédia grega' que passou a predominar os trabalhos de Shakespeare.


Em um ano que observamos filmes maquiáveis e desprovidos de vida como "Belfast" de Kenneth Branagh ganharem o público e a indústria norte-americana, "Macbeth" é um concorrente distante. Por mais que os dois não possuam grandes semelhanças, além da fotografia preta e branca, é interessante observar a escala de preferência da indústria. O belo cemitério artístico de Coen, mesmo cercado de morte o tempo todo, tem seu esqueleto abrilhantado por uma fascinante luz de mistério e bruxaria diferente de “Belfast”, que é um longa morto-vivo, seco e sem vida.

Em ‘Macbeth’, o elenco se torna o grande aliado da produção. O trabalho de Denzel Washington como o general Macbeth é um primor, ele despe sua figura saturada em filmes de ação e utiliza a sutileza para construir o psicológico de seu personagem que à custa de uma incontrolável paranoia cai no próprio poço que cavou. Não que seja novidade, mas sim, Frances McDormand é uma força. Todos os olhos estão na atriz. Ela manipula a história, sua personagem é fria e ambiciosa, acabamos apaixonados por ela. Observamos ela incentivar o marido a dar passos maiores do que a perna, mas por fim, ela também acaba tropeçando e caindo junto na própria ambição. O que é trágico e hilário ao mesmo tempo.


No entanto, o melhor fruto colhido por Coel em "A Tragédia de Macbeth" é incontestavelmente as bruxas interpretadas por Kathryn Hunter. A atriz é extraordinária e rouba a cena com sua interpretação. Sua performance vocal e corporal é hipnotizante, um trabalho surpreendente e medonho à altura da atmosfera horripilante que Coen desenvolveu para a adaptação da obra de Shakespeare. É quando Hunter dá as caras que vemos o quão bem trabalhado foi a produção técnica do filme, tanto em figurino, tanto em mixagem de som, quanto na excepcional fotografia de Bruno Delbonnel, que parece de outro mundo de tão fantástica. Tão fantástica que acaba ofuscando o complexo texto de Shakespeare, resultando num roteiro que parece gritar e nunca consegue ser ouvido. Para quem espera uma aula de roteiro deve se frustar, mas quem é fã de teatro irá se apaixonar. Afinal, ainda temos uma obra visual que nos enche os olhos.



"A TRAGÉDIA DE MACBETH (2021)"
4/5 - ÓTIMO