• Vitor Miranda

A FELICIDADE DAS COISAS


Parte da cobertura da Mostra de Tiradentes.

'A Felicidade das Coisas' é o cinema das casualidades. Dirigido por Thais Fujinaga, o filme explora as complexidades nas relações dos brasileiros que fazem parte da classe média, usando os pequenos acontecimentos do dia a dia daquela família como metáfora para construir a crítica que almeja.


A história acompanha as férias de Paula (Patrícia Saravy) e sua família pelo litoral de São Paulo. A família é formada por seus dois filhos e sua mãe, que foram tão bem escalados que realmente parecem uma família de verdade. A história é bem simples e não utiliza rodeios narrativos para chegar onde quer chegar. Paula tenta comprar uma piscina para que ela e a família possam desfrutar durante as férias de verão, mas se vê em uma séries de complicações por falta de verba para realizar a construção.


O acumulo de pedras no caminho de Paula causam desconforto, é complicado assistir essa série de acasos atrapalharem uma mulher que só procura dar lazer para sua família, mas são esses acasos que tornam o filme tão cru e real. Muitas vezes a classe média no Brasil procura alguma forma de parecer superior, no caso de Paula, essa forma é a piscina. Por mais fútil e vazio que as complicações aparentam ser, fica evidente que a determinação de Paula não se da apenas por uma busca de lazer. A piscina significa uma forma de ascensão social para ela e sua família. Sem a ajuda do marido, Paula se vê abandonada e encurralada por essa balança entre o prazer e o privilégio.


Patrícia Saravy está sublime no papel principal. A atriz interioriza toda a angustia e frustração que a sua personagem exige. Além de realizar a função de chefe da família e ter que lidar com a questão da falta de orçamento para a piscina, Paula ainda está gravida de mais um filho. Saravy não carrega apenas o peso do feto em sua barriga, ela carrega também toda a ambição na busca de dar uma vida melhor para sua família. Ela traz uma sensibilidade que impede que o espectador questione a sua insistência em querer esse privilégio, transformando toda a situação em algo completamente compreensível.


A direção de Thais Fujinaga é sutil e serena, ajudando a criar esse sentimento de que o filme se trata de uma ficção documentada que acompanha as férias dessa família comum. O que poderia ser básico e amador se torna sensível e empático. O grande problema do filme é o roteiro, que quando decide focar no filho de Paula, acaba se perdendo e em alguns momentos até parecendo um filme completamente diferente. O filme vai de uma representação fiel da classe média atual a um coming of age sem propósito e desprovido de carisma.


A fotografia do filme é harmoniosa e se camufla perfeitamente com a direção de Fujinaga. Os dois elementos trabalham em perfeita sintonia para construir a narrativa social que é abordada pelo longa. A cena da loja de piscinas é o perfeito exemplo de coesão nas duas áreas. Enquanto vemos Paula discutindo com o responsável pela obra, vemos varias piscinas de tamanhos e formas diferentes atrás deles e, ao comparar as opções com a piscina que Paula escolheu, é possível perceber que ela não optou pela mais simples ou pela mais barata. É uma maneira de mostrar que mesmo com as condições financeiras não equivalentes ao escolhido, Paula se deu o luxo do direito de escolha, mesmo que tenha sido sem pensar nas complicações que viriam no futuro.


Mesmo que as vezes pareça desinteressado em se aprofundar nas complexidades das dinâmicas familiares, 'A Felicidade das Coisas' é verdadeiro e atual suficiente para sobressair as pequenas falhas do roteiro e criar uma obra cinematográfica refinada e empática.


"A FELICIDADE DAS COISAS" (2021)
3.5/5 - BOM