• Vitor Miranda

ARRASTE-ME PARA O INFERNO (2009)



"Você sabe como os gatos são, eles vêm e vão."

CRÍTICA COM SPOILERS


Excêntrico do começo ao fim, Arraste-Me Para o Inferno é brilhante nos seus absurdos. As vezes, o óbvio e o exagerado entram em consonância e, no caso desse filme, o resultado foi um ensaio atormentador sobre o processo de desumanização gerado pelo capitalismo.


Desde a primeira cena, Sam Raimi insere o terror de maneira gráfica, com uma criança sendo levada para o inferno após roubar um colar amaldiçoado. Contudo, após essa primeira cena, o diretor começa a inserir um terror mais realista e cotidiano, que vai se acumulando até o clímax do filme. Christine Brown (Alison Lohman) trabalha em uma empresa de empréstimos, e está para ser promovida a vice presidente. Por saber que para subir no cargo ela teria que mostrar um pouco de pulso firme e frieza, ela nega um empréstimo para Sylvia Ganush, uma senhora que já havia feito dois outros empréstimos no passado. A senhora se sente injustiçada e humilhada, e decide amaldiçoar Christine.


A partir disso, o filme se transforma. O terror gráfico se mescla com o terror cotidiano, com cenas de pura tensão e cheios de jumpscares. A mão pesada de Raimi na direção funciona muito bem, fazendo com que o público sinta a tensão e o desespero da personagem até nas cenas mais exageradas. É agonizante ver a vida de Christine ser destruída e perceber que ela, bem como o espectador, não tem poder para mudar o seu destino. Essa espiral consegue ser grotesca e agonizante, mas com um trabalho de câmera que supera qualquer expectativa - é impossível tirar os olhos da tela.


É previsível que o final do filme divida opiniões, mas acredito que essa era a intenção de Raimi. É muito fácil julgar o final como patético, se sentir enganado e frustrado, mas essas palavras se encaixam perfeitamente para descrever o fim de Christine.


Se desumanizar e não ajudar a senhora por conta de uma promoção foi o início do seu fim, o capitalismo funciona como um efeito em cadeia: um pequeno gesto pode mudar todo o seu destino, e foi isso que aconteceu com Christine. A sua ascensão foi ao mesmo tempo a sua queda e, no final, em uma metáfora nada sutil, Christine é morta pelo o capital.


Apesar de - algumas vezes - ser exagerado demais, ter vários jumpscares forçados e cenas feitas com intuito de chocar, Arraste-Me para o Inferno é salvo por uma direção requintada e atmosférica; por um roteiro afiado e cômico; e por uma construção ambiciosa que torna o filme uma obra inesquecível.


ARRASTE-ME PARA O INFERNO (2009)
4/5 - ÓTIMO