• Alan Sambista

A MENINA QUE MATOU OS PAIS (2021)

Carla Diaz entrega a melhor interpretação de sua carreira. Uma atuação surpreendente e cheia de nuances. A Suzane de O Menino Que Matou Meus Pais passa por uma insana mudança de personalidade, que Carla extrai com magistralidade.


O segundo longa de Maurício Eça sobre o caso Richthofen é ainda melhor que o anterior. Narrado por Daniel Cravinhos (Leo Bittencourt), o longa conta todos os acontecimentos sobre sua óptica. Um menino pobre que vive de bicos (como se refere o pai de Suzane), inserido a um romance intenso e que literalmente suga sua vida até a última gota. O relacionamento de Daniel e Suzane acontece de forma extrema como em Terra de Ninguém (1973), vai de beijinhos na roda gigante até a natureza violenta de Assassinos por Natureza (1994). Com encontros encobertos por Andreas, viagens às escondidas e um cosmo regado à maconha e sexo, a figura de menina inocente de Suzane von Richthofen vista em O Menino Que Matou Meus Pais (2021) é arrancada de seu rosto como uma máscara. Sua personalidade é forte, manipulativa e carismática.


O que me pergunto e nunca irei entender, é como esse crime chegou a acontecer. É estranho. Suzane tinha tudo ou quase tudo. Seus pais estavam dispostos à investir em seus estudos e até mesmo chegam a levá-la para a Europa num curto intervalo de dois anos. Como seu psiquismo chegou a esse ponto? Como chegar ao ponto de orquestrar a morte dos próprios pais? Ela realmente amava tanto Daniel para convencê-lo a cometer esse crime? O filme não vai explorar exatamente essas problemáticas, por mais existam diversas teorias e estudos psicológicos sobre a sociopatia e o caso Richthofen, sempre será um grande mistério entender a mente de Suzane.


Como foi dito na crítica do primeiro filme, o roteiro não tem a intenção de apresentar algo inovador sobre o caso. Ele vai apresentar o caso na visão de cada um dos acusados (Suzane e Daniel) e ainda assim é um bom aperitivo aos amantes da criminologia. No momento em que o filme faz a inversão de realidades, vemos a dramatização de Daniel, que conta que Suzane o tocou profundamente e ele estava obcecado a ponto de fazer o possível para protegê-la de sua família abusiva e seu pai "alemão". Um ponto que não é abordado na versão de Suzane, é o fato de sua família não ser normal como ela relata. Sua família é boca suja, violenta e problemática, visto que Manfred, seu pai, aparentemente a agredia fisicamente e verbalmente. E nesse filme, ela se rebelava a eles de alguma forma, diferente de seu depoimento que ela relata ter uma 'obediência passiva' aos seus pais. Diferente do primeiro filme, Manfred e Marísia acabam sendo desconstruídos, Daniel expõe até casos de traição que supostamente teriam acontecido. Isso é apontado como um dos problemas de Suzane com os pais, além da perseguição incansável dos dois em relação ao seu namoro.


Posso assegurar que os dois filmes são curtos e ainda acessíveis, e por mais seja apressado, é um projeto que é altamente interativo e que merece uma chance. O diretor foi criativo em sua forma de abordar o roteiro e não acredito que juntar as duas visões em apenas um filme fosse funcionar, afinal, a visão fantasiosa de Suzane iria acabar prejudicando o entendimento e a narrativa do longa. Dividir ambas ópticas em dois filmes foi uma ótima ideia, principalmente pela atuação de Carla Diaz, que entrega a melhor interpretação de sua carreira. Uma atuação surpreendente e cheia de nuances. A sonsice por trás da Suzane de O Menino Que Matou Meus Pais é assustadora, sua angelicalidade é ameaçadora, a forma como ela relata a história tem uma clara intenção de pressionar o público a acreditar em suas palavras. Não é algo fácil de interpretar e muito menos de expressar. Porém, Carla Diaz consegue fazer isto. Quando ela entra em cena em A Menina Que Matou Os Pais é um verdadeiro choque de realidade, como um belo tapa na cara. Sua insana mudança de personalidade para interpretar Suzane é perceptível, não é igual a do outro filme, ela toma o filme para si. A mente sádica de Suzane, seus trejeitos magnéticos, sua fala persuasiva são extraídos por Diaz com maestria. Ela é hipnotizante, parece natural, o que é ainda mais incrível.


Na noite do crime, dessa vez, Suzane que dá as ordens e instrui seu namorado de como executar o plano. Ainda consegue que Christian, seu cunhado se junte a Daniel. A câmera de Eça nos leva para dentro da mansão Richthofen, onde vemos a tão esperada cena de terror que aconteceu naquela noite. A trilha sonora que antes apostava no rock nacional, ganha uma instrumentação de suspense. Vemos Manfred e Marísia agonizarem até a morte, sem sequer terem a chance de se defenderem. Daniel e Christian tomam um verdadeiro banho de sangue, enquanto Suzane aguarda no andar de baixo, intercalando entre o cofre e banheiro da mansão. O filme acaba com o mesmo corte frio do primeiro, quando Daniel abre a porta do banheiro e Suzane só se preocupa com um único fato. O fato dele ter acabado de realizar o ato infame de matar os seus pais.


"Já acabou?"

A Menina Que Matou Os Pais é o retrato mais conhecido do caso Richthofen, sendo o mais interessante e melhor atuado. O elenco está bem e Carla Diaz é implacável como Suzane Richthofen. A direção e o roteiro funcionam, visto que ambas tinham uma proposta: ser o pupilo do narrador da história. A produção não é grande, mas é eficiente o bastante para dar chance à uma história nacional, o que sempre é válido. Vale salientar que é impossível ter simpatia com qualquer um dos dois narradores, porque ninguém sabe qual está contando a verdade. E pelo visto, nunca saberemos.


"A MENINA QUE MATOU OS PAIS (2021)"
3.5/5 - BOM